Brasília - ''Temos de romper com o regime de juros que vige no País'', defendeu ontem o vice-presidente da República, José Alencar, ao comentar a notícia de que a economia brasileira cresceu apenas 0,3% no primeiro trimestre deste ano. ''A potencialidade da economia brasileira é gigantesca e deve ser aproveitada'', pregou.
Alencar garantiu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ''é sensível e tem condições de compreender tudo o que está-se passando.'' Por isso, previu que, ainda no atual governo, serão encontradas ''soluções excepcionais para que o Brasil retome um período de longo prazo de crescimento sustentado''. No entender do vice-presidente, o País ''é o paraíso de todos os povos que desejam investir e crescer''.
O ataque do ''fogo amigo'' contrastou com as declarações que o próprio Alencar havia dado horas antes. Ao chegar, ontem pela manhã, na cerimônia de posse do novo presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), Luiz André Rico Vicente, Alencar havia dito que o crescimento menor preocupa, mas que o País ainda teria todo o segundo semestre para reverter essa situação.
Eram afirmações amenas, na mesma linha das do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que também compareceu ao mesmo evento. ''Devagar com o andor. Os juros estão aí para combater a inflação. O governo está fazendo a parte dele'', defendeu Dirceu. Parecia uma ação coordenada do governo para minimizar o impacto da notícia do crescimento menor.
Aos poucos, porém, o Alencar velho crítico da política de juros foi aflorando e deixando de lado as afirmações tranquilizadoras. Minutos depois de dizer que ainda havia tempo para reverter a situação, o vice-presidente deixou clara sua impaciência. Ao discursar durante almoço oferecido pelo IBS, Alencar alfinetou o Ministério da Fazenda e o Banco Central, ao dizer que os brasileiros aprenderam de maneira errada o verdadeiro significado da palavra economia. ''Economia, obviamente, não é representada pelos ministérios da área econômica'', afirmou. ''Economia, aqui ou alhures, é representada por setores primário, secundário, terciário e pela infra-estrutura.'' Segundo o vice-presidente, ''os ministérios da área econômica existem em todos os países do mundo, para fortalecer essa economia real''.
Alencar brincou com os presentes dizendo que em um almoço ou jantar não se pode fazer discursos técnicos e que apesar de sua tentativa ''muitos continuam no almoço e nem estão aí para o que eu estou dizendo. Mas, de qualquer maneira, eu vou dizer.'' Ao deixar o prédio da CNI, onde a cerimônia foi realizada, Alencar elevou ainda mais o tom de suas críticas e pediu a ruptura com o regime de juros altos.
Em defesa da política econômica, o ministro José Dirceu reafirmou que o País deverá crescer mais de 4% neste ano e criar mais de 1,5 milhão de empregos. ''Isso não é um crescimento baixo'', afirmou. O ministro observou que em 2003 ''todos'' diziam que a política de juros iria inviabilizar o crescimento, mas o País cresceu 5,2% no ano seguinte.
Dirceu garantiu que o Banco Central adotará o comportamento de reduzir juros, quando a inflação arrefecer. ''O País está exportando e o mercado internacional está crescendo. Os juros são uma decisão do Banco Central que tem autonomia e toma sua decisão'', afirmou.
Segundo Dirceu, o governo está fazendo a parte dele reduzindo os impostos, os custos de infra-estrutura e aumentando investimentos em áreas como educação. ''O governo está fazendo a parte dele, inclusive na Previdência, controlando os gastos de custeio que é a forma que pode ajudar o desenvolvimento e o crescimento'', afirmou.

mockup