Brasília Depois de mais de uma hora de conversa por telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estava nos Estados Unidos, o presidente em exercício José Alencar decidiu, no início da noite de ontem, assinar a medida provisória (MP) liberando o plantio de soja transgênica. A informação foi divulgada pelo senador Paulo Paim (PT-RS), que participou de reunião entre parlamentares gaúchos e Alencar no Palácio do Planalto, uma das muitas realizadas em Brasília num dia tenso: esta MP provocou uma das maiores crises desde a posse do governo.
Com ordens de Lula para que levasse a minuta da medida para que o presidente em exercício a assinasse, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, irritou-se com a demora na edição da MP. O atraso obrigou Dirceu a adiar para hoje uma viagem a Cuba. O desgaste entre o vice e o chefe da Casa Civil foi tal que o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, teve de servir de mediador em reuniões com parlamentares.
Enquanto isso, Alencar era alvo dos lobbies contra e a favor da liberação do plantio da soja transgênica. No Congresso, circularam boatos de que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, se demitiria caso a medida fosse assinada. A assessoria dela negou a informação.
Segundo Paim, Alencar ressaltou que assinaria a MP, mas a responsabilidade seria de todos. ''Eu estou assumindo a responsabilidade. Se der problema no futuro, vocês também serão culpados'', teria dito Alencar aos parlamentares, segundo Paim. Logo em seguida, o senador tentou suavizar a declaração: ''Ele disse que a responsabilidade é coletiva.''
No corre-corre, Alencar formou uma comissão para aperfeiçoar a MP. Formada pelo líder do PT, Nelson Pellegrino (BA), pelo ecologista Fernando Gabeira (PT-RJ) e pelo deputado Frei Sérgio Görgem (PT-RS), ela tem de apresentar sugestões até hoje.
Apesar de ainda estar sendo discutido, uma fonte que teve acesso ao texto afirmou que ele vai liberar o plantio de sementes transgênicas na safra 2003/04 e terá poucas alterações em relação à Medida Provisória 113, que estabeleceu normas para venda da safra 2002/03 de soja geneticamente modificada, editada em maio. A nova medida permitirá o escoamento da safra até janeiro de 2005, mas pode, a exemplo da MP 113, prever uma prorrogação do prazo por até 60 dias. ''Ou seja, o produtor terá até o fim de março de 2005 para comercializar a soja da safra 2003/04'', explicou a fonte à reportagem.

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