Alemanha resiste a aderir à cultura corporativa liberal
do Financial Times
Os casos da Holzmann e da Mannesmann ilustram até que ponto a Alemanha continua hostil à economia de mercado. A operação de resgate da Holzmann, uma construtora concordatária, no valor de US$ 130 milhões, é simplesmente o mais recente exemplo da maneira alemã de fazer as coisas. Vista de fora, a operação de resgate é um anacronismo. Ela envia sinais errados aos investidores internacionais e aos parceiros da Alemanha na União Européia. Mas em casa, a decisão do chanceler Gerhard Schroeder obteve sucesso instantâneo, aplaudida por banqueiros, industriais, políticos oposicionistas e pela imprensa.
A operação permitiu que o chanceler, um ano depois de assumir o cargo, abandonasse o papel de reformista econômico no qual ele jamais foi muito convincente e revelasse sua verdadeira persona política. Ao resgatar a construtora, Schroeder agiu para evitar uma revolta na conferência do Partido Social Democrata, marcada para este mês. Foi mais um caso de péssima decisão econômica tomada por bons motivos políticos.
No outro importante evento corporativo dos últimos tempos a oferta hostil da Vodafone para tomar o controle acionário da empresa alemã de telecomunicações Mannesmann , a resposta de Schroeder foi igualmente reveladora. A proposta da Vodafone era incompatível com a economia social de mercado da Alemanha e com a cultura corporativa do país, afirmou Jurgen Ruttgers, da União Democrata Cristã. Mas, já que a Alemanha não é o centro do mundo, é essa cultura que não se compatibiliza com a proposta.
Outro sintoma do crescente distanciamento da Alemanha em relação à cultura empresarial européia é o número de investigações sobre cartéis e subsídios estatais nas companhias do país. Os eventos corporativos do último mês trouxeram à superfície algumas profundas crenças alemãs. Diferentemente dos socialistas de outros países, os social-democratas alemães foram habilidosos ao abraçar o capitalismo. Fizeram-no por meio de um intrincado sistema de conselhos de trabalhos, conselhos de supervisão e práticas de emprego restritivas.
A estrutura do conselho de supervisão, que fracassou de maneira tão absurda no caso da Holzmann (e possivelmente também no da Mannesmann) é o eixo central do sistema corporativo de consenso adotado na Alemanha. O conselho de supervisão controla a companhia e seus executivos, sendo composto pela elite política e empresarial do país. No caso da Holzmann, é preciso questionar como o conselho de supervisão deixou escapar despercebido o crescente prejuízo que terminou por causar o colapso da construtora.
Devido à história conturbada do país, é perturbador descobrir que suas elites ainda não se acostumaram à liberdade econômica. O que os casos da Holzmann e da Mannesmann demonstraram é que a Alemanha está encerrando o século 20 mais ou menos da mesma forma que o começou.





