Álcool sem prumo (Joelmir Beting)
Joelmir Beting
O brasileiro é educado para perder. O americano, para ganhar.
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994), compositor.
Álcool sem prumo
De olho rútilo na provável abertura do mercado americano para o álcool anidro brasileiro, a indústria sucroalcooleira de São Paulo espera esmagar 172 milhões de toneladas de cana na safra 1998/99, que já começou. Uma redução de 5,5% sobre os 181 milhões de toneladas da safra 1997/98. As 141 usinas de açúcar e destilarias de álcool do Estado estão de nariz torcido: os lucros evaporaram.
Na safra que passou, um recorde, os preços do açúcar tombaram 7,5% no mercado externo e perto de 11% no mercado interno. Os preços do álcool igualmente encolheram 5% no anidro (o da mistura carburante) e 7% no hidratado (o do carro a álcool). Um encalhe de aproximadamente 1,8 bilhão de litros explica a redução dos preços e o sumiço dos ganhos. A superoferta faz estragos ainda maiores nesta entrada da nova safra. Desde janeiro, os preços despencaram 32%. Com tabelamento e tudo.
Sim, o mercado já calibra os próprios preços. Mas o governo interventor não ousa abrir mão da intervenção. A liberação dos preços da cana e do hidratado, programada para 1º de maio, acabou protelada para novembro. A cadeia produtiva estava preparada para o fim do tabelamento - mesmo sentada em estoque ocioso de quase 13% da nova safra.
O setor armou-se para um mercado pactuado no lugar do mercado tutelado. A remuneração do fornecedor de cana deve ser calculada com base nos chamados Açúcares Totais Recuperáveis (ATRs). Acordo montado a quatro mãos pelas usinas e destilarias, representadas pela União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), e pelos fornecedores da matéria-prima, representados pela Organização dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo (Orplana). O acordo elegeu a BM&F para o juízo arbitral dos negócios do ramo.
Diretor da Única e presidente da Companhia Energética Santa Elisa, Maurílio Biagi Filho deplora a prorrogação do tabelamento da cana e do hidratado (o anidro foi liberado no ano passado) e pede urgência na instalação da futura Comissão Executiva do Álcool Carburante (Ceac). Essa comissão deve dialogar com a Agência Nacional de Petróleo (ANP). No momento, por exemplo, a ANP decreta o aumento da mistura de 22% para 24% na gasolina e examina a adição do álcool também ao óleo diesel.
A Ceac pode igualmente monitorar a reabilitação do carro a álcool. O tal de Conselho Interministerial do Álcool, vulgo Cima, criado em agosto, continua por baixo. Integrado por sete ministérios, para repensar o Proálcool, o Cima não agita nem apita.Eldorado
- O futuro do anidro brasileiro passa pela conquista do mercado americano, o mais energívoro do planeta. Ao contrário do que a coluna divulgou dia 13, ainda não houve acordo com o governo americano. Confirma-se apenas o interesse da Califórnia em importar até 2 bilhões de litros por ano.
Barreira
- O embaixador Flecha de Lima diz à coluna que o impasse está na remoção da sobretaxa de 54% que penalizaria o desembarque do produto brasileiro. Sobretaxa inventada para proteger o álcool de milho made in USA, bem mais caro que o nosso álcool de cana.
Poupança
- Em 23 anos de carreira, o Proálcool já poupou (em petróleo importado) divisas de US$ 33 bilhões. Em juros da dívida externa aliviada por essa substituição, a poupança totalizaria US$ 67 bilhões. Fonte: Sociedade de Produtores de Açúcar e de Álcool (Sopral).
Muito mais
- Lamartine Navarro Júnior, presidente da Sopral, pega no lápis: se todos os carros populares (metade da produção) passarem a queimar álcool, a poupança de divisas até o ano 2010, em barris e em juros, a dólar de hoje, será da ordem de US$ 117 bilhões. Que tal?





