Sorocaba - O preço do álcool pode chegar a R$ 1,70 para o consumidor no carnaval se continuar subindo no ritmo atual, advertiu ontem a presidente regional do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro), Ivanilde Vieira. O produto acumula aumento de 25% nos últimos 20 dias e continua subindo e há risco de atingir os níveis de preços praticados na entressafra do ano passado. Na época chegou a faltar este combustível nos postos.
''A situação, hoje, é bem diferente, pois há álcool estocado. Não é admissível que se aumente tanto'', afirmou Ivanilde. Os reajustes são quase diários, segundo a sindicalista, que também é dona de postos. ''Ontem (quinta-feira) recebi a R$ 1,19 e hoje estou pagando R$ 1,22 o litro.'' Os reajuste são repassados para o preço nas bombas.
Em Sorocaba, o combustível era vendido ontem a R$ 1,45 em muitos postos. ''Falei com outras regionais do sindicato e a situação está igual em todo o Estado.'' Ivanilde considerou ''conversa fiada'' a disposição do governo de intervir no mercado, reduzindo o percentual de mistura do álcool anidro na gasolina, que é de 23%. ''Todo mundo sabe que há 4,5 bilhões de litros em estoque, suficientes para abastecer o mercado. O que está havendo é especulação, ganância pura.''
Segundo Ivanilde, o dono de usina aproveita a entressafra e o período em que a população mais viaja para aumentar o preço. Mas os usineiros não seriam os únicos culpados pelos sucessivos aumentos. ''Sei que muitas distribuidoras fizeram estoques com álcool adquirido a preços baixos e estão retendo o produto para simular escassez e, assim, ganhar com a alta.''
Ivanilde disse que algumas distribuidoras sérias estão com problemas para obter o produto porque se negam a pagar os reajustes exigidos pelas usinas. A presidente do Sincopetro defendeu uma intervenção do Ministério Público Estadual na defesa do interesse do consumidor.
Em nota, a União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (Unica) informou que não admite comportamento especulativo. Segundo a entidade, na safra deste ano foram produzidos 15,9 bilhões de litros, 11,2% mais do que na safra passada.

Intervenção - O ministro da Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto, afirmou ontem que o governo vai intervir no mercado se os preços do álcool subirem de forma descontrolada. Disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou o Ministério da Agricultura a acompanhar o mercado na entressafra e, no caso de uma alta excessiva, convocar o Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool (Cima) para rever o percentual de mistura do álcool na gasolina, hoje em 23%.
Em vez de subir para 25%, como querem os produtores, a mistura poderá ser reduzida para aumentar a oferta de álcool no mercado e forçar uma baixa do preço. ''A situação é tranquila, mas estamos alertas. O governo não vai ficar passivo'', advertiu o ministro.
Guedes argumentou, no entanto, que os aumentos verificados até agora estão dentro dos ''parâmetros normais'' para esta época, quando os preços tendem a subir por causa da menor oferta (entressafra) e do custo de carregamento dos estoques. Por isso, ele disse acreditar que não será necessária a intervenção do governo.
''Este ano não haverá o problema de preços que tivemos no ano passado'', afirmou. Em janeiro de 2006, o governo foi obrigado a reduzir de 25% para 20% a mistura na gasolina para estimular a queda dos preços.

Estoques - Segundo Guedes, a situação dos estoques é ''confortável''. A previsão é de que no final da entressafra, em maio, os estoques estejam em torno de 500 milhões de litros de álcool. O estoque é hoje de 5,2 bilhões de litros para um consumo mensal de 1,1 bilhão de litros. ''Temos um estoque confortável e não há motivo para pressão de preços'', disse. Ele também destacou que a variação de preços neste ano é menor que a verificada no mesmo período de anos anteriores.
O ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, que esteve com Lula, também minimizou o problema. Para ele, o aumento ocorrido nas últimas semanas é apenas ''um soluço'', causado mais por questões de logística do que pela oferta de álcool.
Guedes antecipou que o Cima não se reunirá mais este mês, como o previsto inicialmente, para discutir o aumento do percentual de mistura de álcool na gasolina, de 23% para 25%, como desejava o setor. Segundo ele, seria um contra-senso um aumento no percentual neste momento de alta de preço.
Ele voltou a dizer que houve um aumento da demanda de álcool em dezembro por causa do apagão aéreo que levou os brasileiros a recorrerem ao transporte terrestre. No final de ano já ocorre normalmente um aumento de consumo por conta das férias e das festas.
Segundo Guedes, esperava-se um aumento de 10% no consumo em dezembro, mas a alta foi de 13%. Ele também avaliou que o crescimento no número de usuários de carros flex fluel (movidos à álcool e gasolina) contribui para o aumento de demanda.

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