Alca e o futuro do Brasil
Enquanto se desenvolvem os entendimentos da Alca, o Itamaraty terá que se multiplicar com atuação simultânea em diversas frentes de batalha. Há vários sinais de que os países da Europa agilizarão contatos com o Mercosul, evitando perder influência em mercados como o brasileiro, onde detêm superioridade sobre os norte-americanos.
Nos derradeiros anos, as companhias sediadas no velho Continente foram responsáveis por mais de 60% dos investimentos diretos no Brasil, mais que o dobro das inversões estadunidenses, merecendo destaque o afluxo de capitais da Espanha e de Portugal. Com a Alca, as empresas dos EUA e Canadá, cá implantadas, receberão de suas matrizes peças e componentes com tarifa zero, e aniquilarão os concorrentes europeus e asiáticos, instalados aqui. Destaque-se que a União Européia absorve 27% das nossas exportações e os Estados Unidos 24%. Assim, é factível a formação de uma zona de livre comércio Mercosul União Européia, bastante vantajosa para nós e eles.
Apesar dos problemas argentinos e da manifesta má vontade do Ministro Cavallo em relação ao Brasil, cabe-nos envidar esforços para fortalecer e ampliar o Mercosul, aceitando a entrada da Venezuela, estreitando laços com Bolívia e Chile, insistindo com os demais membros do Pacto Andino, e, se possível, atraindo a África do Sul. Concomitantemente ao estreitamento dos fluxos comerciais, o Brasil deveria aprofundar os vínculos culturais, esportivos e de amizade com esses Estados soberanos, em ação a ser coordenada pela Presidência da República, começando pela imediata introdução da obrigatoriedade do ensino da língua espanhola em nossas escolas. Cimentar liames com os irmãos latino-americanos, já, deve ser a palavra de ordem.
Nesse ínterim (até 2005), é provável mais uma rodada de conversações multilaterais no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), com decisões intercorrentes aos encontros da Alca, valendo registrar o iminente ingresso na OMC do gigante populacional que mais cresceu economicamente nos últimos 10 anos (média de 8% no PIB), a China.
Em contraposição à inquestionável superioridade norte-americana, contamos com pontos favoráveis, como energia barata, oriunda de hidrelétricas, a maioria com investimentos já amortizados: usinas da Copel, Cesp, Furnas, Chesf e Eletronorte. E ainda nos restam incontáveis mananciais de quedas dágua e reservas hídricas para serem aproveitadas. A incompetência de governos ávidos por gerar caixa e/ou submetidos aos protocolos assinados com o FMI ameaçam levar esse setor à privatização, o que resultará na elevação do preço da energia ao patamar a ser cobrado pelas usinas termoelétricas a gás natural, sem falar nos apagões fruto da inércia do Executivo.
Nosso custo industrial é favorecido por mão-de-obra barata, mas os poderosos sindicatos norte-americanos imporão ao seu governo, nas reuniões da Alca, paridade de salários em toda a região. No segmento agrícola, nossa vantagem sobre os EUA é incontestável. Produzimos mais, melhor e com custos baixos, porque nosso chão é privilegiado por terras férteis, muito sol e água abundante. Mas, os EUA nos pegam com exigências sanitárias e fito-sanitárias e também com barreiras tarifárias.
O Brasil é inigualável em riquezas minerais. O nosso aço suplanta o das antiquadas fábricas norte-americanas, no preço e no teor de qualidade, todavia eles se protegem com a legislação antidumping. Compete ao Poder Executivo, ao Congresso Nacional, aos partidos políticos, às entidades de classe, patronais principalmente e, também, de trabalhadores, à mídia em geral, analisar e discutir em profundidade as implicações que a Alca representará em nosso porvir. As Federações patronais poderão colaborar contratando escritórios internacionais de advocacia e consultorias econômicas, com especialização em OMC, UE e NAFTA, para assessorá-las nos assuntos da Alca, repassando os estudos ao governo federal.
Não é fora de propósito focalizar que os Estados Unidos são o país econômica e militarmente hegemônico no mundo. Contudo, não é impossível advir multipolarização, pois a União Européia se consolida como união aduaneira e monetária (Euro), provável adesão de parte do Leste Europeu e força militar. A República Popular da China (população de 1,3 bilhão) busca autonomia de poderio bélico e balístico intercontinental e dentro de 20 anos seu PIB ficará mais perto do norte-americano. O Japão, segunda potência econômica, voltará a equipar e modernizar suas forças militares (proposta do atual 1º Ministro) e possui tecnologia para alcançar rapidamente esse objetivo. Não olvidemos a Índia, com 1 bilhão de habitantes, economia em ascensão e participando do Clube dos detentores de armas atômicas e, recentemente, de foguetes espaciais. A Rússia retoma sua dignidade nacional (desmantelada por Gorbatchev e Yeltsin), sob o governo nacionalista de Vladmir Putin, e está habilitada pelas suas potencialidades a retomar seu prestígio e expandir sua economia, sob o impulso da livre iniciativa e das leis de mercado, ao mesmo tempo que conservou intacto seu arsenal nuclear, continuou na exploração espacial e vem sofisticando seu armamento convencional.
O Brasil concentra tudo para transformar-se em potência mundial, com seus 170 milhões de habitantes, extenso território, único idioma, inexistência de ódios separatistas, raciais ou religiosos, imensas áreas minerais e florestais, mais de 10% de espaço agricultável do universo, 9ª economia industrial, e vive neste instante uma revolução ética na vida política, que oxigenará as instituições democráticas e abrirá rumos impulsionadores de progresso.
Depois de exaustiva análise de nossas conveniências, se a Alca for a melhor solução vamos implementá-la, juntamente com os outros povos das Américas. Se a Alca for indesejável, cumpriremos nosso destino (unidos ou não aos irmãos do Mercosul), cultivando sempre relações amistosas com os EUA, com os quais nos aliamos na 1ªe na 2ªGrande Guerra e partilhamos os mesmos ideais de liberdade, porém não nos distanciando de outros megapolos econômicos e militares, passíveis de consolidação, nuclearizados pela União Européia, China, Japão, Rússia e talvez a Índia.
LÉO DE ALMEIDA NEVES é suplente de senador pelo Paraná e ex-deputado federal. Exerceu a Diretoria da CREAI do Banco do Brasil.





