AL tem a menor inflação em meio século
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terça-feira, 23 de dezembro de 1997
Agência Estado 
São Paulo
A América Latina registrou este ano a menor inflação em meio século e apresentou o melhor desenvolvimento econômico dos últimos 25 anos, mas cerca de metade da população do continente sequer usufruiu desses resultados e muito menos sabe que isso realmente ocorreu. De acordo com o balanço econômico preliminar deste ano da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal), cerca de 40% dos latino-americanos continuam vivendo na pobreza e, consequentemente, estão ainda alheios a qualquer avanço da região em matéria macroeconômica e social. E mais, ainda pagam pelas consequências negativas do modelo neoliberal dos programas de estabilização da maioria dos países.
Em recente entrevista, o diretor executivo da entidade, Gert Rosenthal, disse que os números macroeconômicos mostram importantes avanços e melhorias significativas, mas a metade da população não sabe disso. Segundo os dados da Cepal, a região vai fechar este ano com um crescimento econômico de 5,3% e uma inflação abaixo de 11%. Essa taxa de crescimento não se registrava há mais de duas décadas. No perído 1991/1996, por exemplo, o crescimento médio foi de 3,2%. Já a taxa da inflação, disse Rosenthal na sua última entrevista, é ridícula se comparada com os 335% de apenas três anos atrás ou de 888% em 1993. Por isso, avaliou, 1997 foi realmente um bom ano. Mas nem tanto e nem para todos, disse, porque boa parte da população não teve acesso a esse desempenh.
Se forem observados os dados da conta corrente da região, por exemplo, ela praticamente dobrou de um ano para outro, passando de US$ 35 bilhões, em 1996, para US$ 60 bilhões este ano (3% do PIB latino-americano). A vantagem, segundo a Cepal, é que o fluxo de capital estrangeiro, que alcançou níveis sem precedentes de pelo menos US$ 73 bilhões, deve cobrir essa brecha. Desse total, quase 2/3 se referem a investimentos diretos, informa a Cepal no boletim, que se encontra também disponível na Internet.
Até agora, alerta a entidade, a América Latina não conseguiu superar os enormes contrastes sociais que decorrem, principalmente, de um dos piores males que atingem a região há alguns séculos: a péssima distribuição de renda. O mercado não tem consciência, sentenciou Rosenthal, que deixa o cargo em janeiro do próximo ano. Como o mercado não pode corrigir essas diferenças, o Estado é que deveria intervir com políticas sociais que busquem beneficiar as classes sociais mais baixas e, de certa forma, esquecidas. Para Rosenthal, até os acadêmicos mais ortodoxos reconheceriam esse problema.
Os técnicos da Cepal que prepararam o informe reafirmam que, no próximo ano, a América Latina poderá não ter números tão favoráveis em função da crise asiática, que começou a afetar a economia da região apenas nos últimos meses do ano.
A Cepal destaca também o problema do desemprego. Embora tenha caído de 7,7%, em 1996, para 7,5% este ano, o nível ainda se mantém alto se comparado com os patamares históricos da região. Para a os técnicos, essa ligeira retração não se deve a uma vigorosa geração de empregos, mas a uma redução da participação trabalhista.


