Ajuste trará recessão ao agronegócio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de setembro de 1998
Oswaldo Petrin 
O ajuste fiscal anunciado ontem pelo governo (uma medida provisória e um decreto redefinindo o orçamento - veja neste caderno de Economia) é recessivo e deve prejudicar o agronegócio como um todo. A deflação - que já vinha afetando mais a agricultura, com queda de preços - tende a aumentar num ambiente econômico que reduza o consumo. Investimentos em máquinas e outros, como os de infra-estrutura, tendem a ser adiados.
A opinião é do presidente do Sindicato Rural de Londrina, o engenheiro agrônomo Edison Mazei Ponti, entrevistado ontem por este Jornal tão logo o ministro Pedro Malan anunciou as decisões do governo para reduzir o impacto da crise mundial. Para Ponti, o setor primário não sai ileso num quadro econômico que reduz as metas de crescimento econômico de 4% para 1%. Ele tem dúvida se essa meta será alcançada, mesmo depois de reduzida.
Vai haver um aperto maior no consumo e os preços dos produtos agrícolas podem cair; esta é a pior coisa que pode ocorrer, afirmou o presidente do Sindicato Rural. Outra consequência pode ser o aumento do preço do crédito, segundo Edison Mazei Ponti. As análises admitem o impacto negativo porque os agentes econômicos em geral, incluindo os do setor primário, já estavam preocupados e, agora, a insegurança aumenta enquanto não se tem a real dimensão dos efeitos desse ajuste.
Perguntado o que o setor deveria fazer neste momento para contrapor ou reduzir o impacto das medidas, Ponti disse que o esforço agora é de sobrevivência e que todos têm que colaborar evitando o pânico. Agora vamos esperar e torcer para que se supere essa sangria de dólares. Mas, ao mesmo tempo, Ponti observou que as Bolsas fecharam em baixa (-0,33% no índice Bovespa), o que sugere que os investidores ainda não estão totalmente certos de que, através das medidas de ontem, a crise mundial foi contornada no Brasil.
Embora afirme que a situação é crítica para a agricultura, Ponti faz projeções animadoras. Ele acha que em um ano e meio, se aprovada a reforma tributária que o País necessita, o cenário econômico será outro. Ajuste cambial e redução das taxas de juros vão desonerar a agricultura. Todas projeções a partir da hipótese de que as reformas sejam levadas a bom termo, convergem para uma situação animadora para a agricultura.
Professor Mologni Outro entrevistado, o professor Ismael Mologni, disse não ter dúvida que o ajuste é recessivo. O professor não acredita na eficácia das medidas e voltou a criticar a equipe econômica por não ter feito o ajuste do câmbio. Observou que os bancos já trabalham com taxas mais altas, sinalizando o agravamento das dificuldades. Ao mostrar uma série de dados, e projetar o comportamento da economia a partir desses dados, Mologni previu recessão brutal também em 99, com aumento do desemprego, decorrente da redução da atividade econômica.


