A Bovespa não se contagiou com o entusiasmo da Bolsa de Buenos Aires pós-acordo com o FMI. Lá, o índice Merval disparou 8,16%. Aqui, o índice da carteira teórica paulista subiu apenas 0,46%, com giro financeiro de R$ 568 milhões. O Ibovespa futuro com vencimento em outubro valorizou 1,07%, para 13.220 pontos. Em Nova York, o dia foi de recuperação. A Nasdaq subiu 1,57% e o Dow Jones valorizou 1,01%.
A melhor frase do dia, que expressou o exato sentimento do mercado brasileiro em relação ao acordo do Fundo teve como autor Gustavo Loyola, da Tendências. ''Muito pouco, muito tarde, muito confuso'' . Segundo operadores ou vidos pela Agência Estado, o acordo foi ''pouco'' porque não tira a Argentina da crise no médio prazo; ''tardio'' porque os mercados se estressaram de tal forma que o ''pacotinho'' do FMI frustrou as expectativas; e ''confuso'' porque sugere a necessidade de reestruturação da dívida argentina, mas em nada facilita a vida de Domingo Cavallo e Daniel Marx nesta empreitada junto aos credores.
Os melhores desempenhos do Ibovespa ontem foram pulverizados entre diferentes setores, sem destaque. As maiores altas foram Globocabo PN (+6,67%) e Inepar PN (+6,22%), papéis voláteis e especulativos que registraram recuperação técnica.
O mercado cambial brasileiro respirou ontem em reação ao anúncio da ajuda do FMI à Argentina. O dólar comercial encerrou em queda de 1,06%, a R$ 2,5230. No entanto, a falta de detalhes sobre as exigências feitas ao país vizinho para a liberação do socorro financeiro manteve os investidores com um pé atrás. Os detalhes do acordo começaram a ser anunciados após o fechamento do mercado pelo ministro de Economia da Argentina, Domingo Cavallo.
Não houve desmontagem de posições de hedge por empresas, mas apenas um aumento de oferta de moeda por tesourarias de bancos para realização de lucros, disseram os operadores das mesas de negociação. Afinal, mesmo com a queda ontem, o dólar ainda contabiliza ganho frente ao real de 2,15% e, no ano, de +29,32%.
Dependendo da profundidade das exigências feitas à Argentina pelo Fundo, o mercado avalia que o dólar poderá voltar a ser pressionado. Esse sentimento predomina nas mesas de negociação porque, se o acordo exigir um sacrifício maior da população, além dos já definidos cortes de gastos federal e das províncias e também de salário dos servidores, tende a haver reação contrária imediata, que poderá voltar a estressar os mercados e dar novo fôlego ao dólar.
Embora a taxa de risco do Brasil e da Argentina tenham recuado, ainda estão sinalizando forte desconfiança entre os investidores. Segundo o banco JP Morgan, o risco país da Argentina caiu 214 pontos e, ainda assim, estava em 1.455 pontos base às 17h30. Já o risco Brasil cedeu 75 pontos, para 938 pontos base.
Em relação à inflação, há quem considere que os índices de preços, daqui para frente vão mostrar desaceleração, porque chegou ao fim (ou estaria perto disso) a pressão do dólar e das tarifas. Mas há também os que temem que a pressão do câmbio ainda continue contaminando a inflação.
(Márcia Pinheiro, Silvana Rocha e Marisa Castellani)

mockup