Ainda é possível confiar no fio de bigode?
O comércio com base no fiado é, na prática, uma relação de cumplicidade. Com o fiado, se estabelece uma relação informal de confiança. O comerciante fica com a certeza de que vai receber no prazo combinado e o cliente compra na esperança de que não vai pagar mais por isso.
O fiado é algo que se verifica de forma mais intensa nas pequenas cidades e nos bairros. Mas isto não significa que o centro das grandes cidades esteja ''isento''. Tudo depende da empatia comerciante-cliente.
O comerciante que vende fiado geralmente tem o ''cadastro'' do cliente na cabeça. É inacreditável, mas às vezes, o dono do estabelecimento pode saber apenas o apelido ou o primeiro nome da pessoa. Mas sabe onde ele mora, quem são as pessoas da família, mais ou menos quanto ganha e, dependendo da afinidade, acaba conhecendo até alguns problemas mais íntimos.
Não há uma regra geral para o funcionamento desta alternativa de crédito. Tudo depende do combinado entre as duas partes: a data de pagamento, até quanto se pode gastar e o que se pode comprar. Alguns locais podem até vender fiado, mas excluem alguns produtos, como o cigarro, por exemplo.
O comerciante que tem uma boa clientela que compra neste sistema precisa ter um rígido esquema de organização para não ter surpresas. As formas de controle mais adotadas são as anotações em um caderno próprio para esta finalidade, em uma caderneta dos clientes ou em um papel assinado em cada compra.
E se engana quem pensa que é só pobre que compra fiado. Há pessoas de ''posses'' e com excesso de compromissos que deixam as contas abertas em padarias, pequenos mercados, sacolões ou farmácias para a família comprar o que precisa durante o mês.
Agripino Batista da Cruz, 53 anos, compra fiado no antigo sistema de caderneta e acredita que ''ainda dá para confiar no fio de bigode''. Para ter crédito, segundo ele, ''a pessoa precisa merecer a confiança e ter honestidade, antes de tudo''.
A dona de casa Tereza Moresca Brancalião compra fiado no mesmo mercado há 24 anos. ''Graças a Deus nuna tivemos problema; eles sempre me trataram muito bem e eu procuro fazer a minha parte''. Ela admite que ''hoje em dia é muito raro este tipo de relacionamento''. Na opinião dela, às vezes esta relação pode ser prejudicada, ''não por má fé'', mas por outros problemas, como desemprego ou redução nos rendimentos do cliente.
O feirante Irineu Marques de Jesus, 66 anos, diz que nem compra e nem vende fiado. ''Hoje não dá para confiar. O povo tem a mania de pedir fiado e depois não volta para pagar. Eu compro só com dinheiro e vendo só no dinheiro'', afirma.
O comerciante Braz Brasilino Riggo, 66 anos, é dono de um pequeno mercado onde trabalha com a família e vende fiado para alguns clientes que ''a gente conhece há mais de 20 anos; são pessoas que pagam certinho''. Para ele, que faz restrições até para o pagamento com cheque, ''hoje em dia não dá para confiar no fio de bigode; isto não vale mais nada''. No mercado do senhor Braz há uma frase bem visível e bem-humorada para os clientes menos avisados: ''Fiado só para pessoas acima de 90 anos acompanhadas dos pais''.





