AGRONEGÓCIO - Voo de galinha no mercado
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segunda-feira, 18 de junho de 2018
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 

O preço da carne de frango congelada subiu 42,4% entre o dia 30 de maio e a última sexta-feira (15), quando vendida no atacado da Grande São Paulo, segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). A diferença, no entanto, está longe de animar produtores e industriais do setor, que enfrentaram uma série de problemas que deixou o cenário nebuloso e abriu a possibilidade de que terminem o ano no vermelho.
A greve dos caminhoneiros do fim de maio terminou com impacto de R$ 3,150 bilhões no setor nacional de aves, suínos, ovos e material genético, conforme a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal). No Paraná, a falta de ração nas granjas causou a morte de frangos, a entrega de animais abaixo do peso e o abate de pintainhos. Assim, o preço da carne ao consumidor aumentou pela menor oferta e porque a paralisação dificultou o abastecimento dos pontos de venda, diz a analista de mercado Juliana Ferraz, do Cepea. Valor que não deve chegar ao campo.
Em condições normais, o abate seria normalizado em até dois meses, mas é pouco provável que isso ocorra. O setor enfrenta embargos da União Europeia e da China, o que fez com que unidades de frigoríficos dessem férias coletivas a funcionários e reduzissem o recebimento de aves. "O que aconteceu é que os períodos de vazio (sanitário) ficaram mais longos nas granjas e vai diminuir o número de lotes produzidos ao ano", diz a médica veterinária Mariana Assolari, da Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná).
Por um lado, os avicultores têm ao menos os custos de produção cobertos. Pouco, porém, devido à necessidade constante de financiamentos para investimentos. "É um período delicado porque o setor está desgastado, em um movimento que vem desde dezembro do ano passado", afirma a analista do Cepea. Ela se refere ao período em que houve aumento do custo de insumos, principalmente a ração, causada por quebras de safra no milho e aumento das cotações internacionais.
FREIO DE MÃO PUXADO
Dezembro e janeiro são meses de queda no consumo de carne de frango, causado pelas substituições de cardápio nas festas de fim de ano e durante as férias escolares. Contudo, a recuperação de preços foi prejudicada pela cambaleante recuperação econômica do País e por uma série de ataques ao setor. O primeiro foi em março, na Operação Trapaça, desdobramento da Carne Fraca pelo qual a Polícia Federal investiga se laboratórios credenciados pelo Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) fraudaram exames laboratoriais para reduzir níveis da bactéria salmonela em amostras, o que facilita a exportação para países com controles mais rígidos.
Depois que o ministério interrompeu as exportações a partir de alguns frigoríficos no Paraná e em outros Estados, o bloco europeu suspendeu em abril a importação de 20 plantas industriais no País. A medida foi considerada como uma barreira mais comercial do que sanitária pelo governo brasileiro, já que a carne de frango continuou a entrar na UE, desde que com o pagamento de uma taxa de mil euros por tonelada.
"Não deixamos de exportar para lá, porque o volume caiu em abril e aumentou em maio", conta Ferraz. Para todos os destinos, foram 247 mil toneladas exportadas no mês em que o embargo passou a valer e 328 no mês passado, alta de 32,8%.
Para atrapalhar, o Ministério do Comércio da China passou a aplicar o que chamou de medidas antidumping sobre o frango brasileiro, com taxas de 18,8% a 38,4% sobre os preços praticados nas importações. A medida será negociada somente em setembro. "Quando o preço caiu muito, o setor tentou controlar a oferta com o menor número de alojamentos, mas todos estão bastante apreensivos porque o clima de incerteza é grande", cita Ferraz.
Tanto que ninguém quer arriscar se 2018 será um ano perdido para a avicultura. "Existe instabilidade nas exportações e na produção, então é cedo para afirmar. "O que temos é a perspectiva de mais produtos no mercado interno, o que leva ao menor alojamento de aves", afirma a representante da Faep.
RENEGOCIAÇÃO DAS DÍVIDAS
A Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) orienta que avicultores com problemas para pagar parcelas de financiamentos junto a bancos busquem a renegociação. O órgão afirma que levou o pleito do setor a Brasília, que foi bem recebido por diretores de bancos e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
"Todo mundo que está precisando e procura a renegociação tem conseguido", diz a médica veterinária Mariana Assolari, da Faep. Ela lembra ainda que, para os produtores que fazem parte de uma Cadec (Comissão para Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração) conseguiram que os frigoríficos pagassem valores ao menos para cobrir o custo das granjas.
O presidente da Avinorte (Associação dos Avicultores do Norte do Paraná), Jorge Nezzes, afirma que os granjeiros aguentam no máximo mais dois ou três lotes com a pressão dos altos custos de produção e a baixa remuneração. "Vai depender das políticas que vão tomar para frente, mas tem gente dizendo que pode precisar desistir da atividade."
Ele conta que as perdas com a greve são de no mínimo 20%, com mortes de aves e perda de peso das abatidas. "O combinado foi pagarem a média dos três lotes anteriores, para evitar penalizar o produtor", diz o presidente da Avinorte.


