Agro paranaense comemora retirada das taxas americanas
Café, carne bovina e frutas foram os principais beneficiados no Paraná. Setores devem manter articulação para desonerar madeira, mel e pescados
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
Café, carne bovina e frutas foram os principais beneficiados no Paraná. Setores devem manter articulação para desonerar madeira, mel e pescados

O anúncio feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta quinta-feira (20), de retirar a tarifa adicional de 40% sobre uma série de produtos agropecuários brasileiros, foi recebido com alívio e otimismo pelo setor produtivo do Paraná.
A medida beneficia itens como café, carne bovina, frutas tropicais, sucos — produtos que estavam no centro do impacto sobre exportadores do Estado desde a imposição das sobretaxas em agosto. Por outro lado, produtos importantes para a economia do estado ficaram de fora, como madeira, mel, pescados e café solúvel.
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Segundo a ordem executiva divulgada pela Casa Branca, a decisão foi tomada após conversa entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro, quando ambos concordaram em iniciar negociações sobre as tarifas. O governo americano justificou que houve “progresso inicial” nas tratativas bilaterais e que recomendações internas apontavam para a necessidade de aliviar parte das restrições, consideradas prejudiciais ao próprio mercado norte-americano.
Em nota, a Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que recebeu “com satisfação” a decisão e destacou que a medida é retroativa a 13 de novembro — data da última reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado Marco Rubio, em Washington. O governo brasileiro reforçou que seguirá negociando para retirar as tarifas remanescentes, especialmente sobre produtos industriais. Já a Amcham Brasil avaliou a decisão como “um avanço importante rumo à normalização do comércio bilateral”, com efeitos imediatos na competitividade das empresas brasileiras, e defendeu a continuidade do diálogo para incluir demais setores afetados.

O deputado federal paranaense Pedro Lupion (Republicanos), presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), atribuiu a retirada das tarifas ao protagonismo do setor agropecuário brasileiro, minimizando o papel de articulação do governo federal. Para ele, o desfecho reflete sobretudo a pressão interna do mercado norte-americano e a capacidade de competitividade do campo brasileiro.
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Segundo Lupion, a demanda do consumidor dos EUA por alimentos mais baratos acabou prevalecendo, abrindo espaço para a entrada de produtos brasileiros. “Há uma pressão interna do mercado americano, do consumidor americano, com inflação de alimentos importante por lá, e o agro competente do Brasil consegue colocar produtos com maior competitividade, com preços mais interessantes para os americanos. A carne brasileira chega lá mais barata que a carne americana, o café brasileiro compõe boa parte do mercado americano e as frutas brasileiras estão nas mesas dos americanos.”
Ele lembra que, além dos itens agropecuários, outros insumos também foram beneficiados. “Além disso, o petróleo e o carvão também tiveram suas tarifas retiradas.” No entanto, o parlamentar destaca que ainda há setores críticos pendentes de solução, especialmente o florestal. “Seguimos na luta pela questão das madeiras, que está afetando fortemente os compensados, as cercas, as molduras, afetando a indústria aqui no Paraná e em boa parte do Brasil.”
Repercussão no Paraná
No Estado, o agronegócio vê espaço para uma retomada rápida das exportações dos segmentos diretamente beneficiados. Para o gerente do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Jefrey Albers, o anúncio foi recebido com otimismo, embora ele reconheça que o movimento, neste momento, tenha um interesse econômico maior nos Estados Unidos do que para o Brasil, propriamente dito.
Segundo ele, a liberação das vendas de carnes, café e laranja deve permitir uma recuperação acelerada. “A gente deve retomar com força essas exportações”, afirma.
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Albers destaca que, durante o segundo semestre, o mercado acabou encontrando alternativas diante do bloqueio imposto pelos EUA. “À medida que tivemos um bloqueio de exportações para os Estados Unidos, os exportadores e os produtores passaram a buscar novos mercados.” Ele observa que houve até aumento das vendas externas do Paraná, incluindo destinos pouco tradicionais. “Exportamos carne até para Uruguai e Argentina, para eles fazerem repasse para os Estados Unidos. O mercado se redesenha.”
Com a reabertura do mercado norte-americano, ele avalia que o Estado tem condições não só de recuperar terreno, mas de ampliar presença internacional. “Agora, com essa necessidade de buscar novos mercados, isso amplia nossa capacidade de exportação. Então, os Estados Unidos retomando, a tendência natural seria até de a gente exportar mais.”

Ao detalhar a distribuição regional dos impactos, Albers explica que café e carne bovina alcançam áreas mais amplas, enquanto as frutas, especialmente a laranja, se concentram no Noroeste. Há ainda casos pontuais, como a goiaba de Carlópolis, que entrou na lista de redução tarifária. “É uma boa notícia, com sinalização de melhora para o futuro”, resume.
SRP
O presidente da Sociedade Rural do Paraná (SRP), Marcelo El-Kadre, avalia que a retirada das taxas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros reforça a competitividade do agronegócio brasileiro. “Quanto menos taxação, a gente fica mais competitivo no mundo todo”, afirmou. O dirigente reforça que o Brasil já opera com “o melhor produto do mundo” em termos sanitários e com capacidade de ampliar mercados.
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Para El-Kadre, a abertura comercial tende a acelerar a entrada de novos compradores e a recuperação de fatias perdidas durante o período de restrições. Ele destaca que esteve recentemente com o ministro da Agricultura e que a prioridade do governo federal segue sendo a expansão internacional. “Você tendo mais clientes, você consegue colocar melhor e maior a sua produção”, disse.
O presidente da SRP considera que a retirada das barreiras reforça um cenário favorável para o pecuário brasileiro, sobretudo pela diferença atual de preços: “Nós temos hoje a arroba do boi mais barata do mundo, um terço do valor dos Estados Unidos. Já temos um produto competitivo, mas com a retirada da taxação deve melhorar ainda mais.”

O dirigente reconhece que os meses de taxação geraram insegurança em parte dos produtores, especialmente pela forma como a informação foi divulgada. Ainda assim, ele sustenta que o setor conseguiu manter sua capacidade de competição. “Assusta no começo, mas o preço e a qualidade que a gente entrega é um diferencial grande. Lógico que afeta, lógico que atrapalha um pouco, e principalmente a informação mal dada. Mas não nos intimida a produzir mais”, afirmou.
Setores que ficaram de fora
Entre os produtos que ficaram de fora da desoneração de Trump, estão a madeira, o mel e os pescados, segmentos em que o Paraná aparece como um dos maiores produtores do país.
As exportações brasileiras de produtos madeireiros para os Estados Unidos registraram queda média de 55% nos primeiros três meses de vigência da tarifa de 50% imposta pelos norte-americanos, conforme análise da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente) a partir dos dados da SECEX/MDIC divulgados em 6 de novembro.

No Brasil, essa cadeia produtiva empregava cerca de 180 mil trabalhadores formais, sendo quase 40 mil contratados por empresas paranaenses. O impacto das tarifas levou uma das indústrias do setor a anunciar a demissão de 400 funcionários de uma só vez nas unidades de Jaguariaíva e Telêmaco Borba (Campos Gerais). Outra empresa, sediada em Guarapuava (Centro-Sul), tinha 900 trabalhadores praticamente parados, e a serraria instalada em Quedas do Iguaçu encerrou suas atividades.
“A gente já teve no setor florestal o fechamento de algumas indústrias. A geração de emprego já foi afetada. A retomada vai ser mais lenta”, avalia Jefrey Albers.
Mesmo assim, vê margem para novas negociações: “A sinalização é boa, esse talvez seja o aspecto mais importante: a sinalização de que esse quadro pode se reverter para mais setores.”
A Abimci considera que a nova rodada de isenções anunciada pelos Estados Unidos é um avanço nas relações comerciais, mas lamenta a não inclusão, neste momento, da madeira. Segundo o superintendente Paulo Pupo, a manutenção da tarifa de 50% imposta aos produtos de madeira processada impede qualquer recuperação do fluxo comercial. “Infelizmente, para o setor de madeira processada, permanecemos com as mesmas tarifas desde o início da taxação, o que tem prejudicado muito a competitividade e a sustentabilidade no mercado americano, que é o principal mercado em média em todos os produtos exportados de madeira processada pelo Brasil”, afirmou.
Ele lembra que o país construiu, ao longo de décadas, participação relevante nos EUA, baseada em atendimento técnico, logística eficiente e conformidade com as exigências do consumidor americano. Pupo destaca que não há alternativa simples para redirecionar a produção a outros destinos. “Onde existe a demanda de madeira processada do mundo, o Brasil já atua muito bem em praticamente os cinco continentes”, explicou.
Segundo ele, a tarifa de 50%, a maior nominal do mundo para o setor, praticamente inviabiliza o comércio e leva o comprador norte-americano a buscar fornecedores com custos menores antes de negociar com o Brasil. Ele espera a normalização das relações bilaterais permita condições isonômicas de competição.
O impacto no mel também se dá nos Campos Gerais, em cidades como Arapoti e Ortigueira, que se destacam entre as maiores produtoras do Brasil. Porém, segundo os entrevistados, o mel conseguiu uma recolocação no mercado mais fácil que a madeira. Já o peixe, principalmente a tilápia, tem a agroindústria do Oeste como principal polo no Paraná, mas também se espalha pelo Norte do Estado.
O presidente da Sociedade Rural do Paraná reconhece o impacto dessa exclusão, mas também demonstra otimismo quanto às próximas etapas das tratativas. “Tudo que onera a sua produtividade impacta, sem dúvida. Mas eu tenho certeza que é o próximo passo [ampliação da desoneração].” El-Kadre acredita que o movimento dos EUA deve prosseguir. “Não tenho dúvida. Quem tem medo do escuro acende a luz.”


Celso Felizardo
Editor com foco em conteúdo e planejamento.


