ArquivoConcorrência globalOs produtos agrícolas: choque de qualidade, aumento da oferta, estabilidade econômica e extrema concorrência. Tudo de uma vez A globalização está causando a mais dramática mudança na história da agricultura. A afirmação é de Bruce Scherr, presidente da Sparks da América do Sul, empresa da área de consultoria e planejamento. O executivo participou segunda-feira do 1º Seminário Internacional de Agribusiness da Sparks, promovido pelo Agrocast, serviço noticioso para o agribusiness da Agência Estado, e pela BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros).
Para Scherr, a globalização da economia está criando novos consumidores, principalmente nas economias emergentes. Isso transformou a demanda no principal instrumento de formação de preço das commodities agrícolas. Scherr afirma que só a demanda explica por que os preços dos grãos se mantiveram altos nos EUA em plena safra do ano passado, quando o país produziu 9,5 bilhões de sacas de milho e 2,4 bilhões de sacas de soja. O presidente da Sparks afirmou que as oscilações de oferta deixaram de dominar o mercado.
Scherr observa que a tendência do mercado nos próximos 3 anos é de se manter firme, embora não em patamares tão altos quanto os de 96/97. Ele ressalta que as 50 maiores economias do mundo registraram em média crescimento de mais de 2% no PIB nos últimos anos, enquanto a inflação média ficou em menos de 2%. Scherr afirma que os mercados emergentes da América Latina e a China desempenharam papel fundamental neste quadro. A estabilização da economia latino-americana conferiu maior renda à população, que assim aumentou seu consumo.
Na China, observa, o êxodo rural de 20% da população modificou o papel do país no mercado internacional de grãos em poucos anos: De exportador de milho, o país se converteu em importador. Os chineses também importam de 3 a 4 milhões de toneladas de soja e derivados.
Bruce Scherr afirma que a globalização deve eliminar as culturas ineficientes em todos os países. Scherr acredita que o processo de liberalização do mercado agrícola é irreversível em todos os países. ‘‘Mesmo na União Européia, as barreiras tarifárias e subsídios tendem a ser extintos’’, afirma. O presidente da Sparks afirma que esta tendência ocorre porque a UE não pode se dar ao luxo de sustentar segmentos ineficientes com o risco de ser retaliada por parceiros comerciais em suas exportações competitivas. ‘‘Mesmo com a vitória dos socialistas na França, os europeus vão acabar criando programas de transferência de agricultores para outros setores da economia’’, observou.
Nos EUA e América Latina, observa Scherr, a não intervenção do governo já está mais consolidada. Como exemplo, o executivo observa que a área plantada da soja americana cresceu. ‘‘Isso acontece porque o governo deixou de criar dispositivos para incentivar outras culturas em detrimento da soja’’, afirmou.
Trigo e milho No curto prazo, a Sparks Companies aponta tendência de queda de preços para trigo e equilíbrio para o milho até o final deste ano e no ano que vem. ‘‘As cotações futuras em Chicago já apontam essa queda’’, diz o vice-presidente da Sparks América do Sul, Juan Rebolini. Segundo ele, a maior incerteza se concentra na soja, que já tem preços em queda com contratos de novembro em Chicago entre US$ 6,50 e US$ 6,60 por bushel, ante US$ 8 a US$ 8,50 praticados no começo deste ano. Ele afirma que ainda há uma insegurança quanto à produção americana, que só começa a ser colhida em outubro/novembro, e em relação ao comportamento da demanda no final deste ano. Rebolini avalia que o preço pode voltar a subir no começo de 1998 caso a produção brasileira e argentina não cresça demasiadamente.
A Sparks prevê aumento de 5% na área plantada no Brasil na safra 97/98 e crescimento de 4% na Argentina, o que resultaria em produção de 28 milhões de toneladas no Brasil e 14 milhões de toneladas na Argentina. Na opinião de Rebolini, o que vai determinar o preço será a evolução da demanda.
O vice-presidente da Sparks América do Sul, Juan Rebolini, afirma que os moinhos brasileiros terão dificuldade de comprar trigo de qualidade na Argentina nos próximos meses. Segundo ele, existem 2,6 milhões de toneladas de trigo da safra velha para ser vendido na Argentina, mas apenas metade desse produto é de qualidade superior.
Tanto o Brasil quanto os moinhos argentinos vão disputar esse trigo. Segundo ele, os moinhos brasileiros demoraram para comprar na Argentina e hoje ainda precisam de cerca de 1 milhão de toneladas até o início da colheita da safra brasileira. O resultado dessa concorrência com os moinhos argentinos é o alto preço do trigo na Argentina atualmente, US$ 154 por tonelada ante US$ 135 por tonelada na Bolsa de Chicago. Rebolini afirma, porém, que até o final deste ano os preços devem cair de US$ 10 a US$ 15 por tonelada na Argentina, o que diminuirá também o preço para o produtor nacional.
Soja O diretor da Coinbra, Stephen Geld, prevê redução no ritmo de crescimento na produção de soja no Brasil. Geld acredita que a produção, que vinha crescendo 5% nos últimos anos, se reduza a 3%. Para Geld, uma série de barreiras estruturais brasileiras conspira contra o crescimento. Ele afirma que a queda do ICMS para exportação foi positiva, mas não suficiente para reduzir substancialmente o Custo Brasil.
A primeira barreira são os custos portuários que vêm crescendo apesar da anunciada modernização. Como exemplo, Geld cita que em 91 o custo por tonelada em Paranaguá era de US$ 6, sendo que hoje gira em torno de US$ 9. O custo com frete ferroviário também aumentou entre 35% e 45%.

mockup