O pacote econômico divulgado ontem pelo governo deixou o setor agrícola perplexo. As principais lideranças agrícolas temem os efeitos das medidas pelo reflexo recessivo que elas anunciam, mas, ao mesmo tempo, aplaudem aquelas que abortam as importações de alimentos, que o setor vem reivindicando há tempo. O País está gastando US$ 4 bilhões/ano só na importação de alimentos e essa sangria poderá ser abortada, acreditam lideranças ouvidas pela Folha.
Para Norberto Ortigara, diretor do Departamento de Economia Rural, da Seab, se o governo conseguir negociar o acordo com os países do Mercosul para aumentar o valor da Tarifa Externa Comum (TEC), vai beneficiar o setor agrícola. Ele apontou o excesso de gastos de divisas com importação de alimentos para justificar a abertura da economia. Segundo Ortigara, além da perda de divisas a produção nacional vinha sendo prejudicada com desestímulo ao produtor que não conseguia competir com outros países que exportam produtos subsidiados.
Se o pacote incluir realmente a revisão da TEC e a taxação da importação, Ortigara admite que está havendo novamente um fechamento parcial para a economia, mas adianta que muitos setores serão beneficiados como os produtores de leite e a agroindústria de derivados. Por outro lado, ele reconhece que a elevação do imposto de importação vai encarecer o preço dos insumos.
Para o assessor econômico da Fetaep, Sérgio Gutierrez, todo plano econômico gera intranquilidade. E para o setor agrícola a situação é mais grave porque o produtor foi estimulado a plantar e agora fica na dúvida se terá a resposta do seu esforço revertida em renda no período da comercialização. Gutierrez disse que as medidas ainda precisam ser melhor avaliadas, mas antecipa que o aumento de impostos e tarifas públicas geram recessão, desemprego e, como consequência, depreciação nos preços dos produtos agrícolas. Mas, se o pacote é temerário de um lado pode ser benéfico de outro. Ele acredita que, se o governo adotar mesmo as medidas para proteger a produção nacional através da elevação dos impostos de importação, os produtos como algodão, milho e arroz serão beneficiados. Porém, ele questiona a capacidade do governo em manter uma recessão no País num ano eleitoral, sem recorrer às importações de alimentos.
Gutierrez criticou o fato de o governo beneficiar ainda mais as exportações. Isso vai refletir somente na agricultura empresarial.

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