Quando a desvalorização cambial veio, muitos agricultores brasileiros não disfarçaram seu otimismo com a possibilidade de reverter uma situação adversa: produzir sem prejuízo e ainda ter lucro com a atividade. Seria a redenção do setor, argumentavam os especialistas. Momento mais do que oportuno para a recuperação da renda face ao elevado nível de perdas experimentadas a partir da década de 80, conforme estudos de diversas entidades representativas do setor e do próprio governo.
Passados alguns meses, lamentavelmente o que se nota é que todo aquele otimismo inicial não era real. Vivemos ainda um momento delicado e o agricultor deve ter muito cautela, pois não conseguirá plantar a mesma área cultivada na última safra (1998/99) com a receita auferida na atual. E por que isso ocorre? Segundo um levantamento feito pela Organização e Sindicato das Cooperativas do Paraná (Ocepar), a variação de preços dos principais produtos que compõem o custo de produção foi bem superior à desvalorização ocorrida com o real, corroendo assim os possíveis ‘‘ganhos’’ obtidos com as elevações de preços dos produtos agrícolas.
Junto com a desvalorização da moeda brasileira também vieram fortes remarcações nos preços dos principais insumos utilizados pela agricultura. Na tabela 1, podemos ver que a média da variação dos preços praticados por alguns destes insumos antes da desvalorização (janeiro/99) e o mês passado (abril/99) ficou em torno de 42,34%.
Ao fazer os cálculos, o agricultor brasileiro conclui que o seu lucro mais uma vez está indo pelo ralo. Os insumos tiveram uma variação média de 42,34%, elevando os custos de produção dos sete principais produtos agrícolas em 23,51% na média do mesmo período (veja na tabela 2).
E para que o leitor possa melhor visualizar estes efeitos da desvalorização do real sobre o setor primário, a Ocepar calculou a evolução dos preços dos produtos agropecuários no mesmo perído, o que evidencia uma considerável perda para os agricultores brasileiros (veja tabela 3).
Existe um verdadeiro desencontro entre os custos e os preços recebidos pelos agricultores. Observa-ve ainda que os produtos de mercado interno são os mais prejudicados em função de que praticamente todos apresentam perdas.
Diante destes fatos, chamamos a atenção dos agricultores e do próprio governo para três pontos importantes e que devem ser agilizados para não comprometer a futura safra:
Primeiro - Não deve haver euforia, quer seja em relação à safra ou ao preço dos produtos; e neste sentido, é importante evitar gastos que não estejam no estrito relacionamento com o plantio da próxima safra de verão, caso contrário dificilmente o agricultor poderá plantar a mesma área do ano anterior.
Segundo - Se faz necessária a intervenção governamental quanto à majoração dos preços dos produtos que compõem o custo da produção. Existem algumas distorções e absurdos que precisam ser corrigidos.
Terceiro - Urgência na definição da ‘‘política’’ a ser estabelecida para a próxima safra de verão. Que as regras sejam claras e transparentes na definição de fontes de recursos para atender à demanda por crédito rural e no estabelecimento do novo seguro agrícola e também quanto às normas para comercialização da safra.
Diante de todos estes fatos, podemos vislumbrar que as perspectivas para a próxima safra de verão não são nada animadoras, pois a prática demonstra que a cada novo plano ou mexida na economia brasileira, a agricultura acaba pagando a conta.
JOÃO PAULO KOSLOVSKI é presidente da Organização e Sindicato das Cooperativas do Paraná - Ocepar

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