Para compensar a vantagem da indústria brasileira em relação à produção industrial argentina, a Agricultura foi utilizada como moeda de troca entre os governos brasileiro e argentino. A consequência para o Brasil é que o setor agrícola está pagando caro pelo acordo feito, com a redução drástica de algumas culturas importantes para o abastecimento nacional, como trigo e algodão. Dos países do Mercosul, o que mais ganhou mercado foi a Argentina, que se tornou o segundo maior parceiro comercial do Brasil. A avaliação é de João Paulo Koslovski, presidente da Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná).
A Argentina aumentou as exportações de trigo, algodão e produtos lácteos. Entre 1991 e 1996, as importações da Argentina aumentaram de US$ 2,2 bilhões para US$ 8,3 bilhões por ano. No Brasil, as exportações para o Mercosul cresceram menos, passando de US$ 2,3 bilhões para US$ 7,3 bilhões, apontou Norberto Ortigara, diretor do Departamento de Economia Rural, da Secretaria da Agricultura do Paraná.
A verdade é que a Argentina tem vantagens comparativas na produção agrícola, e com o acordo feito, ela ganhou mercado e o Brasil perdeu, justificou Ortigara. Para o diretor técnico da Ocepar, Nelson Costa, as vantagens da Argentina começam com a fertilidade do solo, que resulta em custos de produção mais baratos. A infra-estrutura para transporte também é melhor, o que reduz o custo final dos produtos. A Argentina tem distâncias menores e têm mais disponibilidade de ferrovias e hidrovias para transportar a produção agrícola, o que reduz o custo do frete. Segundo Costa, a Argentina acelerou o processo de privatização dos portos e os custos portuários são 50% inferiores aos portos brasileiros.
Para a Ocepar, na época que foi assinado o acordo o governo brasileiro estava com a visão de longo prazo, e contava com os altos índices de produtividade de setores especializados, como a produção de aves, suínos e soja que se mantiveram competitivos. A meta era harmonizar o fluxo financeiro ao longo do tempo, até que os setores mais penalizados atingissem as mesmas condições da produção argentina.
Ocorre que nessa frase de transição, o governo brasileiro não adotou nenhuma proteção aos produtos brasileiros, enquanto a Argentina fixou alíquotas para importação de produtos que considera sensíveis como açúcar, café e laranja, condenou Koslovski. Para o açúcar brasileiro, mais competitivo, a Argentina taxou o produto em 25%, enquanto as importações de qualquer produto do Mercosul para o Brasil tem tarifa zero. É evidente que o tratamento para a agricultura brasileira foi desigual, acrescentou.

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