Da Redação
O presidente do Sindicato Rural de Londrina, Edison Mazei Ponti, defendeu ontem a necessidade do Plano Real rever suas metas e distribuir os sacrifícios impostos para sua sustentação. Lembrou que quando o presidente Fernando Henrique Cardoso disse que a âncora do plano é o povo - o que foi colocado, na época, como ponto positivo - na realidade deixou entrever que haveria sacrifício em cima de salários, o que, mais uma vez, atinge em cheio a produção de alimento. Ponti lembrou este fato ontem para dizer que salários e agricultores estão exauridos e que o ano 2000 requer revisão de estratégia.
São três os pontos enfocados pelo presidente do Sindicato Rural, ao ser entrevistado por este jornal: 1) Defende a melhoria dos salários, para aumentar o consumo, 2) Elucida a questão da âncora da estabilidade: não passa de sacrifício salarial, 3) Sugere que no ano 2000 os sacrifícios sejam melhor distribuídos, inclusive entre aqueles setores que só levaram vantagem.
Salários baixos significam queda de consumo e uma camisa de força nos preços agrícolas. Para Ponti, é hora de aumentar os salários, ou seja o poder aquisitivo da população - em vez de reduzir os preços dos alimentos, que já estão no limite - e estimular o crescimento econômico a uns 6% ao ano e não cerca de 3%, como o previsto. Se essa taxa é impraticável, então que se distribua melhor os sacrifícios entre os setores que tiveram grande lucros com o Planto Real.
Pelo raciocínio de Ponti, a âncora este ano sendo, de novo, o salário, e o lastro é a agricultura, a exemplo do que ocorreu com a âncora cambial. Enquanto a agricultura segurou a estabilidade e a balança comercial exportando com deságio cambial, o setor industrial importou tudo o que pode. ‘‘Importaram até fábrica de carros completa. Veio o ajuste cambial e esses setores tiveram ganhos fantásticos. Enquanto isso a agricultura, exportando a um câmbio irreal, garantia a balança comercial, com a soja e o café perdendo entre 30% a 40% de defasagem’’, afirma. ‘‘A desvalorização cambial de 50% foi a prova irrefutável’’.
A âncora cambial, sustentada na transferência de recursos da agricultura para outros setores, aconteceu depois de uma âncora verde cujo sacrifício foi reconhecido pelo próprio governo e cujos números todos conhecem. Para uma inflação de 70%, de 1994 a 1999, a cesta básica, no mesmo período, aumentou 5%.
‘‘As âncoras mudam de nome mas continuam sendo lastreadas pela agricultura’’, segundo Ponti.
A agricultura sofreu uma transferência de recursos de R$ 15 bilhões e está exaurida. Assim como os salários que foram terrivelmente achatados em cerca de 50%, tomando seu valor em dólar no início do Plano, em 1994.
Para Ponti, está na hora do governo distribuir os sacrifícios. Os setores até agora beneficiados - financeiro e automobilístico, por exemplo - deveriam dar sua parcela. No início do plano real, um veículo popular custava R$ 7,6 mil, hoje custa R$ 16 mil.
No entanto, o preço da saca de milho, que, no início do Plano, vinha com um preço de mercado de R$ 8,00, foi jogado para R$ 4,50, devido à recessão. Se você pegar o preço mínimo de US$ 6,7 no início do plano real, terá os mesmos R$ 12,50 de hoje. Ou seja, o preço de mercado, hoje - decorrente de fator adverso - não passa do equivalente ao preço mínimo de cinco anos atrás.
A propósito do milho, Ponti lamentou que dentro da própria cadeia alimentar do produto, há representantes que o colocam como o vilão.
Para desbancar essa desinformação nem é preciso argumentar com as distorções do plano econômico. É só verificar a participação do componente milho na composição do custo do frango, que é de 10%. Bastaria, então, acrescentar os 10% ao preço final do frango, cuja variação na realidade foi maior.
A lógica não é ganhar no milho para produzir um frango barato. O poder de compra é que tem que ser suficiente para acompanhar o comportamento da economia. ‘‘Frango e milho têm que custar o que valem’’, define o presidente do Sindicato Rural de Londrina.
Para Ponti, não adianta achatar o salário - e, como consequência os preços agrícolas -, o ideal seria promover o crescimento econômico com melhor distribuição. Como não dá para crescer 6% ao ano, então que se reveja o sacrifício de cada setor e que se distribua o ônus para os setores que tiveram grandes lucros no Planto Real. ‘‘O governo que trate de apertar os parafusos certos, nessa regulagem da economia para o ano 2000’’, disse.
Ponti termina as críticas e sugestões com a seguinte pergunta: Por que sobrecarregar de impostos um setor e privilegiar, com isenções, outros setores? - citando a questão das alíquotas.