O furacão que afeta a economia mundial não poderia ter chegado em pior momento para a agricultura brasileira. Ele passa pelo Brasil bem na hora da decisão do plantio da safra 98/99. Além dos riscos tradicionais - o climático e os de mercado -, os produtores este ano temem a evolução da crise nos mercados financeiros mundiais, a recessão e a desvalorização cambial no Brasil.
Embora ainda não existam estimativas exatas sobre área e produção para 1999, já existe ao menos um consenso em toda a cadeia agrícola: o aumento de produção de milho em detrimento da soja. Arroz e algodão também devem crescer.
A primeira previsão de oficial da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) deve sair apenas no final deste mês. Ainda há uma indefinição no ar, mesmo com algumas regiões em pleno plantio. Fernando Sampaio, presidente do Sindicato da Indústria de Adubos e Corretivos Agrícolas no Estado de São Paulo (Siacesp) e da Fertiza, concorda que o clima entre os agricultores é de indecisão.
Atraso nas compras Desde meados de agosto, depois da crise da Rússia, as encomendas para o setor de fertilizantes estão abaixo do esperado. ‘‘Ainda não sei se os produtores estão adiando as compras em função do cenário econômico ou se já decidiram plantar menos mesmo’’.
A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) prevê 78,7 milhões de toneladas para a safra 98/99, o que significa um crescimento de apenas 1% em relação ao volume produzido na safra passada. A CNA aponta ainda a redução da área plantada de 0,1%, para 23,023 milhões de hectares. A projeção da CNA foi feita com base na intenção de plantio verificada em setembro na região Centro-Sul, considerando as culturas de algodão, arroz, milho, feijão, e soja.
O arroz, na avaliação da CNA, é o produto com maior crescimento, 26,2%, passando de 6, milhões de toneladas no ano passado para 8,3 milhões de toneladas este ano. A produção de algodão também deverá crescer, passando de 414,5 mil para 473,4 mil toneladas (pluma). Haverá ainda aumento na safra de feijão, de 8,%, e de 10,9% na de milho. A CNA prevê queda de 5,3% para a soja.
As outras culturas e a produção nas regiões Norte e Nordeste terão uma queda de 12,5%. Na estimativa de área plantada deverá haver redução de 8,4% no algodão e de 5,9% na de soja.
Conab contesta Na semana passada, o presidente da Conab, Eugênio Stefanelo contestou a previsão da CNA. Segundo ele, a safra de verão 1998/99 deverá atingir 85 milhões de toneladas. Para ele, o pessimismo no setor rural captado pela CNA deveu-se à crise financeira mundial e às dificuldades de liberação de recursos para o crédito agrícola, mas o presidente da Conab revelou que levantamentos preliminares feitos por cooperativas, sindicatos, e técnicos da empresa, que é responsável pelas estimativas oficiais da safra de grãos, indicam um crescimento de cerca de 9% na safra, com aumento da área plantada de arroz, algodão, feijão e milho.
Nos últimos dados oficiais da Associação Nacional para a Difusão de Adubo (Anda), o acumulado de janeiro a agosto deste ano, mostram estabilidade nas vendas de fertilizantes. As entregas foram de 7.438.416 toneladas, contra 7.376.937 do ano passado (variação de 0,8%). Até março passado, o setor faturou mais devido às compras para a safrinha de milho.
Quando começaram as encomendas com vistas ao plantio da próxima safra, as vendas entraram em queda. O empresário da área de insumos se diz assustado com a lentidão nas vendas. Ele teme que a indefinição sobre a economia leve a uma redução na safra do ano que vem. ‘‘O que seria péssimo para o Plano Real, pois o nível de estoques do governo estão muito baixos e teríamos que importar grande volume de alimentos’’.
O diretor da Manah, maior empresa de fertilizantes do País, Luis Carlos Lazzarini, concorda que há um atraso no plantio deste ano, mas ele acredita que as vendas de adubo vão se acelerar e devem fechar o ano nos mesmo níveis do ano passado.
Na sua opinião, a safra do próximo ano terá uma área plantada praticamente igual a do ano passado, e o ponto decisivo para isso é a disponibilidade de crédito oficial. ‘‘Se o governo cumprir o plano de safra, que prevê R$ 10 bilhões para o financiamento do plantio, não teremos problemas’’.
Crédito Fernando Sampaio, presidente do Siacesp, também teme a possibilidade de falta de crédito, pois acredita na tendência de troca da soja pelo milho e arroz. O problema, acrescenta, é a necessidade maior de crédito oficial, já que estas culturas são de mercado interno.
O professor da Faculdade de Economia da USP e ex-secretário de política agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Dias, acredita que a área plantada deve se manter igual a dos últimos anos mesmo com a crise. E ressalta que o troca-troca de culturas pode até mesmo resultar num aumento do volume nesta safra de verão.
Isso porque o milho e o arroz têm produtividade maior do que a soja, o que leva ao crescimento da colheita mesmo que venha a ocorrer uma pequena queda na área plantada. A área plantada vem se mantendo nos últimos anos em torno dos 35 a 36 mil hectares.
Mesmo com o possível aperto de crédito e o risco de recessão no ano que vem, os agricultores estão hoje capitalizados, avalia o economista. Cálculo da consultora Leila Campos Vieira, da MB Associados, mostra aumento na renda agrícola neste ano de 7,% em relação a 97 (de R$ 33,314 bilhões para R$ 35,571 bi). No ano anterior, pelos cálculos da consultoria, a renda agrícola aumentou 16,2%.
Na opinião de Guilherme Dias, esse resultado deu um fôlego para o setor. Mas ele acredita que o próximo ano dependerá da atuação do governo na comercialização para impedir que os preços caiam demais e corroam esse ganho de renda dos últimos anos.
O principal motivo que estimulou a explosão da soja no Brasil leva agora à queda de produção: o vínculo com o mercado externo. Houve uma super-produção de soja nos Estados Unidos este ano. Eles estão colhendo 79,16 milhões de toneladas, contra os 74,22 milhões de toneladas produzidas em 97, com consequente forte queda de preços nos mercados futuros do complexo.
Os preços apurados pelo serviço de cotações do Agrocast-Agrotaxas já mostram o reflexo no mercado interno desta forte queda de preços em relação a última safra. Um exemplo: a soja ao produtor na região de Rondonópolis caiu 26,53% entre junho de 97 (R$ 14,17/saca) e junho deste ano (R$ 10,41), considerando os preços médios da soja nestes meses.
Quando comparada a junho de 96 (R$ 10,94/saca), o preço deste ano está praticamente estável. Mas a comparação com junho de 95 (R$ 7,18/saca) é mais reveladora quanto à perspectiva de 99. Os preços de 98 se mostram excelentes se confrontados com os de 95.
Safra americana Mas o cenário de 99 tende a ser muito parecido com o de 95, quando os preços tiveram forte queda em condições semelhantes de safra. O preço médio da soja em Rondonópolis em junho de 95 foi de R$ 7,18/saca.
O USDA divulgou a primeira estimativa oficial sobre a futura safra de soja do Brasil. E o órgão do governo norte-americano prevê uma queda de 6,5% na safra a ser colhida no País em 99. Alguns especialistas no Brasil trabalham com uma queda nesta faixa.
O sócio-diretor da Agroconsult, André Pessôa, lembra que além das queda de preços, a soja está sendo desestimulada pela redução dos créditos privados. Tradings e indústrias tiveram de aumentar o custo dos financiamentos para compra antecipada do produto (soja verde). E mais: estes financiamentos têm correção cambial, ou seja, são muito arriscados no momento.
A estes fatos somam-se as estimativas de produção e de estoques finais mundiais para o produto. O USDA divulgou em 9 de outubro um relatório em que prevê a safra 98/99 em 153,63 milhões de toneladas, praticamente a mesma da última safra (97/98). Mas o grande fator para derrubar preços é a estimativa de estoques finais. O USDA aponta um aumento de 20,9%, saindo de 19,39 milhões de t em 97/98 para 23,17 milhões de t em 98/99.
O desempenho dos preços internos também explicam a opção por milho e arroz. Segundo a pesquisa do Agrotaxas, o milho mostra boa recuperação de preços. Na região de Campo Mourão, por exemplo, o preço médio ao produtor em junho de 97 era de R$ 6,10/saca. Neste ano subiu para R$ 7,17 (alta de 17,54%).
No caso do arroz, o aumento de preços foi explosivo. Julho de 97 na região de Pelotas/RS (arroz em casca e beneficiado tipo 1) registrava um preço médio da saca de R$ 11,99, contra R$ 17,23 apresentados este ano, ou seja, uma alta de 43,70%.
O secretário da agricultura de São Paulo, João Carlos Meirelles, concorda que o plantio está atrasado em função da turbulência econômica, mas ele não acredita que o setor deixará de plantar por esse motivo. Ele destaca que o governo já deixou claro que a agricultura é prioridade, quando manteve os níveis de juros no crédito rural apesar de ter elevado todas as outras as taxas.

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