A reação do mercado financeiro à sucessão dos fatos políticos ocorridos na última quarta-feira, que abriu o dia de ontem com a bolsa de valores operando em alta e o dólar em queda, demonstra a descrença no atual governo em tomar as rédeas da política econômica brasileira novamente. Além disso, não haverá estabilidade econômica enquanto a situação política não se estabilizar. Essa é a opinião de especialistas sobre as implicações na área econômica da nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como ministro-chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff e a divulgação de grampos telefônicos autorizados pela Justiça, com o fim do sigilo imposto decretado pelo juiz federal Sérgio Moro. Os fatos abalaram o noticiário, levaram brasileiros novamente às ruas e refletiram positivamente no mercado financeiro. Ontem, o índice Bovespa fechou em sua maior alta (6,6%) desde 2009, enquanto o dólar à vista teve seu maior recuo em um ano, caindo a R$ 3,6473, influenciado pela suspensão na Justiça da posse de Lula.
O professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Marcelo Curado diz que o momento de forte oscilação do mercado é típico de períodos de instabilidade. "Vivemos numa instabilidade política, ninguém sabe o que ocorre na plenitude. Mas parece que, do ponto de vista do mercado, o agravamento da situação, um impeachment ou uma renúncia, o que piora para o governo é bem visto pelo mercado", analisa.
Na visão do professor do Departamento de Economia da Universidade Positivo Lucas Dezordi, o que trava o governo é a instabilidade política de dentro do Planalto e do Congresso Nacional. "Não há pressão inflacionária vinda de setores externos, vinda de salários ou custo de mão de obra, que justifique uma inflação tão alta, a não ser uma instabilidade econômica que joga o câmbio para cima e, consequentemente, a expectativa de inflação para cima", descreve.
Para ele, o cenário indica que a situação de Lula como ministro da Casa Civil seria insustentável e que, caindo, levaria junto a presidente. Consequentemente, aguarda novos atores políticos com uma nova proposta econômica.

Financeiro e real
O presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, concorda com o ponto de vista, mas diferencia o mercado financeiro do mercado real. "A economia do mercado financeiro vive de apostas. Estamos nessa fase com o mercado financeiro vivendo de aposta positiva quando sinaliza a queda do governo e não muito positivas quando o governo consegue se manter", delineia.
Por outro lado, a economia real "vai ficar na sala de espera", com o mercado interno numa crise muito grande. O setor exportador, mesmo com um desempenho relativamente bom, também permanece inseguro com a variação do dólar. "O setor real está pagando a conta (da crise): empresas fechando, o desemprego aumentando, o que nos leva para o encaminhamento, sem a solução dessa crise política, a uma crise econômica ainda mais profunda do que já vivemos", alerta.
Segundo os especialistas, o mercado aguarda uma definição sobre o futuro político do País para poder ter expectativas sobre o que virá. Para Antunes, o mercado está reagindo de um modo bastante pragmático. "Ele (mercado) considera que esse governo não tem condição de enfrentar essa crise econômica e que sua queda é a entrada de novos atores que farão as reformas necessárias", diz.

Mudança urgente
Dezordi alerta que o governo Dilma precisa passar por mudança urgente e via na nomeação de Lula a última aposta possível. "Ou ele governa e é o salvador da pátria, reagrupando a base de apoio e acalmando o mercado, ou ele cai", diz. Porém, ele vê uma perda na credibilidade do ex-presidente que, após as suspeitas sobre propriedades que estariam em nome de terceiros, tem dificuldade para mobilizar aliados ou as massas.
Marcelo Curado ressalta que o mercado prefere situações de menor risco e faz um paralelo com quando Lula foi eleito presidente. À época, o ex-presidente, vindo de um partido tido como de esquerda, precisou publicar a "Carta aos Brasileiros", documento em que se comprometia a cumprir uma política econômica ortodoxa. "Em 2002 o câmbio estava quase explodindo. A partir do momento em que o Lula se posicionou de uma forma mais cuidadosa, o mercado o via como alguém que mudou de posição e era visto como confiável." Por outro lado, a deterioração do quadro político nacional fez com que o mercado deixe de ver Dilma como uma comandante de um governo.

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