Mauro FrassonOfertas tentadorasAnúncios de jornais prometem dinheiro fácil a qualquer pessoa, principalmente para os funcionários públicosO aumento da inadimplência no comércio e a falta de empréstimos bancários para pessoas físicas fizeram ressurgir com força um segmento informal da economia: a agiotagem. Escritórios de ‘‘agentes financeiros’’ proliferam nos prédios comerciais do centro de Curitiba. Somente no final de agosto, o Ministério Público encaminhou 18 processos administrativos relacionados à agiotagem para ser investigados pela Delegacia do Consumidor. A maioria dos casos deve resultar em inquérito policial.
Escondidos atrás de profissões inexistentes como ‘‘intermediador bancário’’ ou como consultores financeiros, os agiotas aproveitam a fragilidade do consumidor endividado. Os juros cobrados pelos empréstimos chegam a índices exorbitantes de até 100% sobre o valor emprestado. A maior parte das taxas de juros fica em torno de 20% a 40% neste mercado.
A história que envolve os agiotas e os tomadores do dinheiro é praticamente a mesma em todos os escritórios camuflados do centro da cidade. Os casos acontecem tanto com pessoas físicas quanto jurídicas. Muitas empresas de factoring fazem desconto de cheques e duplicatas, chegando a comprar cheques do comércio e de postos de gasolina. Os juros cobrados, muitas vezes, extrapolam os limites permitidos.
A Folha presenciou um caso de cobrança excessiva de juros feito entre um consultor financeiro e um aposentado da Petrobrás, que deu detalhes da operação desde que seu nome não fosse divulgado. As regras do empréstimo determinavam que o aposentado tomasse R$ 5 mil por um período de dez meses e aceitasse pagar um total de R$ 10 mil ao final do prazo.
O aposentado da Petrobrás contou como caiu na roda da agiotagem. ‘‘Foi porque a gente comprou muita coisa no comércio e não pôde pagar’’, disse ele ao sair da sala do ‘‘consultor financeiro’’, que está instalado no 11º andar do prédio Bradesco, na Rua Marechal Deodoro. Com medo de ser perseguido por agiotas, num primeiro momento o aposentado resiste à entrevista e não aceita dizer seu nome, nem mesmo as iniciais. Mas acaba concordando em dar detalhes da dívida. ‘‘Emprestei R$ 5 mil e vou pagar 10% deste total a cada mês. Depois de dez meses pago o total da dívida’’, revelou. Ele diz que assinou promissórias e cheques pré-datados que garantem ao agiota receber o dinheiro.
Fazendo um cálculo simples, o aposentado diz que pagará R$ 500,00 todos os meses para a pessoa que emprestou dinheiro a ele, totalizando R$ 5 mil. Mas no final de dez meses, ele terá de pagar mais R$ 5 mil, para liquidar de fato a dívida. Os R$ 500,00 pagos por mês servem apenas como pagamento dos juros da dívida. Em menos de um ano, ele terá desembolsado R$ 10 mil ao consultor financeiro, o que dá 100% de juros em relação à dívida inicial.
O aposentado não acha o empréstimo absurdo. ‘‘Esse cara aí é um dos melhores. Teve uma vez que, em um mês, eu tive de pagar R$ 700,00 por ter emprestado R$ 500,00’’, relembrou. Neste caso, o lucro do agiota foi de 40%. Apesar do percentual menor que o último empréstimo tomado, o aposentado acha mais fácil pagar 10% em dez vezes do que 40% em única parcela.
Para cair na teia da agiotagem basta abrir os jornais e procurar os anúncios que prometem ‘‘dinheiro fácil’’ ou ‘‘dinheiro na hora’’. Ao ligar para os telefones anunciados, quem atende pede que sejam deixados o nome e o telefone. Em seguida, alguém liga para oferecer o empréstimo. Há anúncios que chegam ao ponto de sugerir que o leitor conseguirá organizar suas finanças emprestando dinheiro no mercado informal. Num mesmo final de semana podem ser encontrados 25 anúncios de crédito fácil.

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