Joelmir Beting

‘‘O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O socialismo é exatamente o contrário.’’
Sérgio Porto (1923-1968), o Stanislaw Ponte Preta.


Agenda de avestruz
Escoltados por ministros de Relações Exteriores e de Economia e Finanças, os chefes de Estado do Grupo dos Oito (G-8) tentam digerir, na cidade inglesa de Birmingham, uma agenda de avestruz. Literalmente, todos os problemas da civilização nesta virada do Terceiro Milênio. Da fuzarca bancária na Ásia ao armistício entre árabes e judeus. Da introdução melindrosa do euro à expansão do crime organizado. Do impasse do (des)emprego no próprio G-8 à construção de uma nova ordem monetária internacional. Dos impactos da globalização na vida das nações à agenda de restauração do meio ambiente...
O discurso é pantagruélico em reuniões de cúpula feitas para reunir e não para decidir. A diplomacia vive disso. O antigo G-7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Itália e Canadá, pela ordem) dá carona à Rússia (G-8), desde a Cúpula de Denver, em maio do ano passado. Fala-se que o G-8 abrirá o leque para o G-12 no ano 2002. Com a inserção de China, Brasil, Índia e Espanha, o clube dos 12 maiores PIBs do mundo. O Itamaraty já cuida do assunto.
No ‘‘summit’’ de Denver, um ano atrás, a agenda econômica predominou numa ‘‘nice’’. Os Estados Unidos desfilaram indicadores de prosperidade sustentada e sustentável. Alemães, franceses, ingleses e italianos discursaram sobre a gestação da moeda única européia e anunciaram um ‘‘pacto pelo emprego’’ voluntarista. Entre dois sorrisos amarelos, o Japão prometeu safar-se da recessão e entreabrir o mercado mais fechado do G-8. O Canadá não abriu o bico e a Rússia de Yeltsin assumiu o compromisso de botar ordem na casa - que deixou de ser socialista e está longe de ser capitalista.
O melhor da declaração conjunta de Denver: rasgados elogios à modelagem econômica dos tigres asiáticos. Sete semanas antes da implosão da Tailândia, efeito dominó ainda hoje sobressaltando o planeta sem juízo, quintal do G-8.
Em Birmingham, o anfitrião Tony Blair propõe mecanismos de proteção conjunta contra turbulências financeiras de fundo meramente especulativo. Uma defesa em bloco facilitada, no caso da União Européia, pelo advento da moeda única, o euro, a partir de janeiro. Tony Blair vai ter de explicar, mais uma vez, por que a Inglaterra não embarcou no bonde da moeda única.
As cabecas coroadas do G-8 continuam sem respostas adequadas para o desemprego de 27 milhões de trabalhadores (qualificados) nos dois lados do Atlântico Norte. Limitam-se a apostar no reaquecimento econômico da União Européia, onde o pior já teria passado.Secos e molhados
Bombaça
- A agenda do G-8 acaba de ser atravessada pelos testes nucleares da Índia. Um desafio à hipocrisia das potências nucleares do G-8. A França, por exemplo, teima em soltar buscapes atômicos em terra alheia. E deposita o lixo atômico nas águas do Atlântico.
Trapaça
- Para desativar a Índia nuclear é preciso que Paquistão e China façam a mesma coisa. E que tal destruir as ogivas nucleares de russos e americanos? Elas estocam o equivalente a 4,3 toneladas de dinamite para cada terráqueo. Abro mão das minhas.
Carcaça
- Da Russia de Yeltsin, o G-8 cobra ousadia nas reformas econômicas de corte capitalista. O mercado bêbado tornou-se refém da máfia. Ou como diria Gorbachev: ‘‘Matar o elefante é fácil. Difícil é remover o cadáver.’’
Arruaça
- A Indonésia também abriu os cotovelos na mesa do G-8. A crise financeira estourou a podridão do regime mais corrupto da Ásia. O G-8 está preocupado, não com os indonésios, mas com os investidores da bolsa global, a do cassino digital.

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