O prejuízo acumulado da operadora é de R$ 190 milhões; atual gestão diz que medidas de contingenciamento vão gerar economia mensal de R$ 3,5 milhões
O prejuízo acumulado da operadora é de R$ 190 milhões; atual gestão diz que medidas de contingenciamento vão gerar economia mensal de R$ 3,5 milhões | Foto: Anderson Coelho/03-04-2017



A Sercomtel tem um prazo de 30 dias, a contar da última terça-feira (13), para apresentar à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) um plano de recuperação de suas finanças, sob pena de ver decretada a "caducidade" de sua concessão. A empresa londrinense, que pertence à Prefeitura (55% das ações) e à Copel (45%), é concessionária para explorar o serviço de telefonia fixa. Com a caducidade, poderia continuar operando banda larga e telefonia celular, serviços para os quais detém autorização.

Na terça-feira, o presidente da companhia, Luiz Carlos Adati, e o prefeito Marcelo Belinati (PP) foram convocados "em caráter de urgência" para ir a Brasília esclarecer sobre a situação financeira da operadora, bem como prestar contas das medidas que estão sendo tomadas para solucionar os problemas. Desde 2012, o órgão regulador faz um acompanhamento mais apurado das finanças da Sercomtel, bem como da Oi, operadora que está em recuperação judicial.
Há dois meses, a reportagem entrou em contato com a agência. A assessoria informou que a empresa londrinense estava "longe de um processo de intervenção".

Nos bastidores, há quem veja uma pressão do governo federal para que a Sercomtel seja posta à venda. Na última segunda-feira, segundo o portal especializado em telecomunicações tele.síntese, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, comentou a situação da empresa londrinense. Ele teria dito que, apesar de pequena e com foco em telefonia fixa, a Sercomtel pode ser alvo de aquisição. "Sempre existe atração para o investimento. No caso, poderia atrair um investidor médio, mas também um grande", disse Kassab, segundo a publicação.

Quando fala em investidor médio, segundo comentários de bastidores, Kassab pode estar se referindo à empresa privada Algar Telecomunicações, fundada em 1930 em Uberlândia, com o nome de CTBC. Ela e a Sercomtel são as únicas sobreviventes do período anterior à privatização da Telebras, em 1998.

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Imagem ilustrativa da imagem Agência ameaça cancelar concessão da Sercomtel

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REUNIÃO
Segundo Adati, a reunião da última terça-feira em Brasília foi tensa. O presidente da Anatel, Juarez Quadros, teria sido enfático. "Disse que não dará um dia a mais para nós apresentarmos um plano real de recuperação da empresa", afirma. O presidente da Sercomtel garante que sua equipe vai trabalhar "dia e noite" para dar conta da tarefa em 30 dias. Ele afirma que sua gestão, que teve início em janeiro, apresentou 78 medidas de contenção de gastos e geração de receitas, que devem somar R$ 5 milhões até o fim deste ano - entre elas revisão de contratos e "corte profundo nas despesas operacionais".
Adati diz que a Sercomtel já havia apresentado um plano de recuperação à Anatel em 2013. Mas nem todos as propostas foram cumpridas pela gestão anterior (ver quadro).
O prefeito Marcelo Belinati disse à FOLHA que o "plano de reconstrução" da Sercomtel já está em execução. "São várias medidas de austeridade, como corte de cargos, de insumos, gastos desnecessários que já estão gerando economia nesse momento, mas a partir de agosto a previsão é de gerar uma economia de R$ 3,5 milhões ao mês", afirmou.
Além das medidas de austeridade, a empresa tem um plano de expansão que visa aumentar as receitas. "A Sercomtel precisa aumentar a sua receita para que se torne viável financeiramente. E é isso que a Anatel quer saber, o que estamos construindo. A reunião (com os conselheiros da agência reguladora) serviu para eles nos relatarem a preocupação que têm porque estão analisando as contas da Sercomtel mês a mês, de 2009 a dezembro de 2016, e a curva, segundo eles, não teve melhora, pelo contrário", disse.
O prejuízo acumulado da operadora é de R$ 190 milhões. A dívida consolidada do grupo chegou a R$ 238,9 milhões em dezembro de 2016, valor muito próximo da receita anual bruta da companhia, de R$ 251,3 milhões.

Ex-presidente ressalta aumento da receita
Presidente da Sercomtel de 2013 a 2016, Christian Schneider diz que sua gestão trabalhou para reverter o quadro financeiro da operadora, tendo apresentado lucros em 2014 (R$ 9 milhões) e 2015 (R$ 6,9 milhões). E que a receita cresceu em média 6% ao ano no período. Além disso, de acordo com o ex-presidente, a diretoria anterior realizou outras medidas como o corte de 30% do número de diretoria e gerências. "Infelizmente, o custeio da Sercomtel cresce no mínimo acompanhando a inflação", lamenta.

Schneider ressalta que o Plano de Demissões Voluntárias (PDV) implantado por ele gerou uma economia de R$ 1,4 milhão na folha de pagamento. E que, no ano seguinte, foi apresentado um Plano de Carreira, Cargos e Salários (PCCS) para corrigir distorções salariais e "estancar a enxurrada" de ações trabalhistas movida pelos funcionários. O PDV, de acordo com o ex-presidente, custou R$ 600 mil.

Ele afirma que, historicamente, a companhia trabalha com fluxo de caixa negativo e que, "a qualquer momento", a Anatel poderia tomar uma medida como esta, de ameaçar tirar a concessão da empresa. "Quando uma operadora apresenta desempenho financeiro ruim e não consegue manter os serviços, ela pode passar por duas situações: intervenção ou caducidade. Infelizmente, a Anatel optou pelo pior cenário." (N.B.)

Funcionários rejeitam proposta da empresa
Para piorar a situação da Sercomtel, no mesmo dia em que a Anatel ameaçou cancelar a concessão da empresa para explorar telefonia fixa, os funcionários decidiram em assembleia recusar a proposta da administração de não conceder reajuste salarial neste ano. Segundo João Henrique Schmidt, diretor do Sinttel - sindicato que representa a categoria -, a decisão vai para a Justiça.

"Queríamos apenas o INPC (índice inflacionário para correção de salários), em torno de 3,4%, mas a empresa não aceitou", afirma. Questionado se os funcionários levam em consideração a decisão da Anatel, ele diz que a assembleia terminou antes de ele saber desta notícia. "Uma vez deliberado (a recusa da proposta) não posso voltar atrás", alega.

O sindicalista declara que os funcionários não podem ser responsabilizados pela situação da empresa. "A empresa corta somente na carne dos trabalhadores. Ela cria diretorias, com salários altos, e contrata assessores", critica.

O presidente da Sercomtel, Luiz Carlos Adati, nega que tenha criado diretorias. Ele admite que a atual gestão transferiu das empresas coligadas para a controladora todos os cargos de assessores. Com isso, o número de assessores passou de dois para seis. E que, na gestão anterior, dois deles eram ocupados e agora são quatro. (N.B.)

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