'Afastei apagão e multas. Conto com você', diz FHC
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de maio de 2001
Das agências De Brasília 
Falando diretamente com cada cidadão, olho no olho, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou ontem o pacote de medidas com que o governo pretende enfrentar e contornar a crise no setor elétrico. Qualificando o desabastecimento de energia como um desafio temporário, ele pediu o engajamento da população para que sejam evitadas medidas mais drásticas como o corte linear de energia.
Tentando reduzir ao máximo seu desgaste junto à opinião pública, ele fez questão de frisar que foi sua a decisão de descartar o apagão e a aplicação de multas para conter o consumo de energia. Eu conto com você, podem contar comigo, afirmou. Hoje, mais uma vez, peço a sua atenção para um novo desafio: o de vencermos a escassez transitória de energia em algumas regiões do País, disse o presidente, em rápido pronunciamento por cadeia nacional de rádio e televisão. A meta a ser atingida será, na média, de 20% de redução no consumo geral, o que não é pouco, mas não há como amenizar este esforço. Já afastei as multas e o apagão, prefiro confiar no povo. Afastei a hipótese do corte de energia porque ele causaria males enormes a você e ao País.
Fernando Henrique enfatizou os pontos mais atraentes do pacote: a criação de um bônus de redução de preço para as famílias que pouparem além da meta estabelecida e, no caso dos pequenos usuários, a possibilidade de conta gratuita. Pouparemos de sacrifício maior cerca de 93% das famílias, as de menor renda e menor consumo, cujas tarifas não serão alteradas, disse o presidente. Cobraremos mais dos que, tendo mais renda, gastarem mais. Ao contrário do esperado, Fernando Henrique não fez um mea-culpa nem assumiu a responsabilidade pela crise iminente. Reconheceu que algumas das críticas ao governo são pertinentes, mas manteve o argumento de que o desabastecimento decorre da falta de chuvas.
Independentemente das críticas, algumas justas, sobre erros na condução da política energética e de falta de previsão no uso dos reservatórios de água, o fato é que houve drástica redução das chuvas na Região Sudeste. Ele associou o aumento do consumo de energia à retomada do crescimento econômico e à democratização do acesso aos serviços de energia. É um sinal positivo, de um País que volta a crescer, comentou. O presidente reafirmou que o Brasil tem capacidade de gerar energia, mas padece da falta dágua. Prometeu dar continuidade à construção de linhas de transmissão de energia e acelerar a construção de usinas movidas a gás.
Pensado para conquistar a confiança da população, o discurso do presidente usou o sucesso do controle da inflação para ilustrar a transparência da ação do governo na busca de soluções para a questão da energia. Nosso povo já passou por provações maiores e, para enfrentá-las, nunca deixei de falar com franqueza ao País, afirmou.
Foi assim quando derrubamos a inflação, quando enfrentamos as crises econômicas vindas do México, da Ásia, da Rússia e quando, em 1999, fomos obrigados a desvalorizar o real, acrescentou.
O presidente não falou sobre cortes de energia nem sobretaxas que não considera multas. No pronunciamento de ontem, FHC não disse que estava voltando atrás na questão da cobrança extra nem admitiu abertamente erros que o governo tenha cometido na atual crise. Disse apenas que, independentemente das críticas, algumas justas, sobre erros na condução da política energética e de falta de previsão no uso dos reservatórios de água, o fato é que houve drástica redução das chuvas na região Sudeste.
Em vez de culpar governos anteriores (Collor e Itamar), como havia feito ao tratar desse assunto antes, FHC atribuiu ontem a crise energética apenas à falta de chuvas. Dispomos de capacidade para gerar energia. O que nos falta é combustível, a água.


