Falando diretamente com cada cidadão, ‘‘olho no olho’’, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou ontem o pacote de medidas com que o governo pretende enfrentar e contornar a crise no setor elétrico. Qualificando o desabastecimento de energia como um desafio temporário, ele pediu o engajamento da população para que sejam evitadas medidas mais drásticas como o corte linear de energia.
Tentando reduzir ao máximo seu desgaste junto à opinião pública, ele fez questão de frisar que foi sua a decisão de descartar o apagão e a aplicação de multas para conter o consumo de energia. ‘‘Eu conto com você, podem contar comigo’’, afirmou. ‘‘Hoje, mais uma vez, peço a sua atenção para um novo desafio: o de vencermos a escassez transitória de energia em algumas regiões do País’’, disse o presidente, em rápido pronunciamento por cadeia nacional de rádio e televisão. ‘‘A meta a ser atingida será, na média, de 20% de redução no consumo geral, o que não é pouco, mas não há como amenizar este esforço. Já afastei as multas e o apagão, prefiro confiar no povo. Afastei a hipótese do corte de energia porque ele causaria males enormes a você e ao País’’.
Fernando Henrique enfatizou os pontos mais atraentes do pacote: a criação de um bônus de redução de preço para as famílias que pouparem além da meta estabelecida e, no caso dos pequenos usuários, a possibilidade de conta gratuita. ‘‘Pouparemos de sacrifício maior cerca de 93% das famílias, as de menor renda e menor consumo, cujas tarifas não serão alteradas’’, disse o presidente. ‘‘Cobraremos mais dos que, tendo mais renda, gastarem mais’’. Ao contrário do esperado, Fernando Henrique não fez um mea-culpa nem assumiu a responsabilidade pela crise iminente. Reconheceu que algumas das críticas ao governo são pertinentes, mas manteve o argumento de que o desabastecimento decorre da falta de chuvas.
‘‘Independentemente das críticas, algumas justas, sobre erros na condução da política energética e de falta de previsão no uso dos reservatórios de água, o fato é que houve drástica redução das chuvas na Região Sudeste’’. Ele associou o aumento do consumo de energia à retomada do crescimento econômico e à democratização do acesso aos serviços de energia. ‘‘É um sinal positivo, de um País que volta a crescer’’, comentou. O presidente reafirmou que o Brasil tem capacidade de gerar energia, mas padece da falta d’água. Prometeu dar continuidade à construção de linhas de transmissão de energia e acelerar a construção de usinas movidas a gás.
Pensado para conquistar a confiança da população, o discurso do presidente usou o sucesso do controle da inflação para ilustrar a transparência da ação do governo na busca de soluções para a questão da energia. ‘‘Nosso povo já passou por provações maiores e, para enfrentá-las, nunca deixei de falar com franqueza ao País’’, afirmou.
‘‘Foi assim quando derrubamos a inflação, quando enfrentamos as crises econômicas vindas do México, da Ásia, da Rússia e quando, em 1999, fomos obrigados a desvalorizar o real’’, acrescentou.
O presidente não falou sobre cortes de energia nem sobretaxas – que não considera multas. No pronunciamento de ontem, FHC não disse que estava voltando atrás na questão da cobrança extra nem admitiu abertamente erros que o governo tenha cometido na atual crise. Disse apenas que, ‘‘independentemente das críticas, algumas justas, sobre erros na condução da política energética e de falta de previsão no uso dos reservatórios de água, o fato é que houve drástica redução das chuvas na região Sudeste’’.
Em vez de culpar governos anteriores (Collor e Itamar), como havia feito ao tratar desse assunto antes, FHC atribuiu ontem a crise energética apenas à falta de chuvas. ‘‘Dispomos de capacidade para gerar energia. O que nos falta é combustível, a água.

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