O início da vacinação contra a febre aftosa no Rio Grande do Sul foi mais uma vez adiado, devido ao mau tempo e aos conflitos políticos entre o Ministério da Agricultura e a Secretaria Estadual da Agricultura. A primeira carga de medicamento desembarcou ao meio dia de ontem, no aeroporto de Santa Maria, com 1 milhão de doses - um quarto do necessário para vacinar o rebanho de 4 milhões de reses dos 25 municípios das fronteiras com o Uruguai e Argentina.
Metade desse lote foi transportado de caminhão para Santana do Livramento, onde foi detectado um foco da doença no último sábado. Centenas de produtores locais esperavam à noite, no sindicato rural, a chegada da carga.
O governo gaúcho chegou a ofecer helicópteros para transportar mais rapidamente os remédios até Livramento, mas o secretário de Defesa Agropecuária do ministério, Luiz Carlos Oliveira, rejeitou a proposta e praticamente escoltou a carga até seu destino. Responsabilizado pelos produtores por não ter aceito antes a vacinação preventiva, o ministério decidiu bancar o custo dos medicamentos (R$ 0,65 a dose) e entregá-los diretamente para o sindicato rural fazer sua distribuição.
Se a vacina fosse centralizada pelo governo do Estado, como estava inicialmente previsto, haveria uma supervisão dos técnicos da Secretaria da Agricultura, o que os produtores não desejavam tanto pela morosidade do processo quanto pelo medo de ter o gado fiscalizado. Em caso de o número de reses não coincidir com os registros da Inspetoria Veterinária, os produtores estão sujeitos a multas. ‘‘Faz 30 anos que vacinamos por conta própria e não vai ser agora que precisaremos de supervisão’’, repetia hoje o presidente do sindicato de Livramento, David Martins.
Com o gesto favorável aos produtores, o ministro Pratini de Moraes retoma parte do prestígio perdido e dá um tapa de luva no rival do governo gaúcho, o secretário José Hermetto Hoffmann (PT), que estava organizando a vacinação em Livramento. No último domingo, o petista deixou a cidade aplaudido pelas críticas que fez ao ministro e pelo rechaço à aplicação do rifle sanitário, o que significaria a morte de cerca de 18 mil animais circunscritos à área com risco de infecção, e não apenas os 11 com sintomas da doença. Isso é o que prevê o plano de erradicação da aftosa junto a Organização Internacional de Epizootias (OIE), mas nem produtores nem governo gaúcho concordam com a medida.
‘‘Se o ministério decidir sacrificar os animais, terá de fazer por conta própria, porque nós vamos sentar na arquibancada e assistir’’, disse hoje um dos coordenadores da Secretaria de Agricultura, Gilberto de Mello Fernandes.
O próprio ministério também começou a dar sinais de recuo em relação à sua posição inicial, que era aplicar a risca o acertado na OIE para não perder o status de zona livre de aftosa. ‘‘O Estado é soberano, mas essa decisão tem consequências’’, afirmou o secretário de Defesa Agropecuária, Luiz Carlos Oliveira.
Em meio a guerra política, os produtores admitem aceitar uma solução intermediária, desde que não signifique um extermínio em massa do rebanho, como ocorreu em Jóia (RS), no ano passado, quando 11 mil animais foram sacrificados. ‘‘O problema é se abrirmos um precedente. Não sabemos onde iria parar’’, afirma o presidente do sindicato, David Martins.

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