Acordo do café prejudica o Brasil
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de maio de 2000
Isabel Dias de Aguiar e Yolanda T. Vianna Agência Estado 
Lideraças da cafeicultura brasileira sustentaram ontem a opinião de que o acordo de retenção de café - firmado em Londres na sesta-feira - causará um impacto positivo no mercado. Este choque de preços vai dar sustentação aos atuais níveis, prejudicados pelo excesso de ofertas. Ao mesmo tempo, se apressaram em afirmar que a melhor distribuição do lucro dentro do segmento garantirá vantagem par o consumidor.
É que na sexta-feira analistas haviam comentado que o Brasil não fez bom negócio. O acordo de retenção de café firmado em Londres entre os países produtores na última sexta-feira, só deve prejudicar o Brasil, segundo acreditam analistas, exportadores e produtores de café. Foi uma tremenda burrada, disse a professora de Economia Agrícola da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo, Silvia Saez. A experiência mostra que, no passado, os acordos, cujo objetivo era dar sustentação às cotações do produto no mercado internacional, acabavam contribuindo para acumulação de estoques, o que resultava no aviltamento dos preços, disse.
A situação atual é ainda pior. Nas décadas de 60 e 70, os acordos eram negociados no âmbito da Organização Internacional do Café (OIC), isto é, com a participação dos países consumidores de café. Isso ocorreu, principalmente, nas décadas de 60 e 70, quando o Brasil contava com a infra-estrutura e o apoio logístico do Instituto Brasileiro do Café (IBC), que dispunha de armazéns e técnicos qualificados para acompanhar os embarques e a estocagem.
Existe uma grande diferença entre a OIC e a Associação dos Países Produtores de Café (APPC), uma vez que agora os produtores não podem contar com colaboração dos consumidores de café, afirmou a professora da FEA. Mesmo com essa ajuda, o Brasil não obteve vantagem. Todo o ônus ficava com o Brasil, enquanto os demais produtores desfrutavam dos benefícios da retenção dos estoques, lembra a professora.
Falta de lógica A retenção de café é mau negócio especialmente neste ano, quando o volume da produção brasileira, estimado pela Embrapa em 28,9 milhões de sacas, será insuficiente para atender a todo o mercado. Silvia calcula que, daquele total, 13 milhões de sacas serão consumidas no mercado interno e 2 milhões de sacas, dirigidas à produção de café solúvel. Com as cerca de 17 milhões de sacas destinadas às exportações, o País terá de recorrer aos estoques, não havendo assim lógica na retenção.
O economista Rubens Nunes, da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) também considera inócuo o acordo firmado em Londres. Como Silvia, Nunes não aprova qualquer intervenção no mercado. O único reforço aos preços seria por meio do financiamento dos estoques.
A limitação dessa estratégia é o custo do dinheiro, reconhece o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Luiz Hafers, que também informa ser contra qualquer tipo de intervenção, uma vez que, para ele, o mercado acaba sendo atropelado pelos acordos isolados.
As cláusulas do acordo acabam sendo vulneráveis, porque a cafeicultura não pode ser comparada ao petróleo, nem a entidade que reúne produtores à Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), diz o economista da Fipe. O café é um produto elástico, ou seja, quando fica muito caro, o consumidor troca por outras bebidas.
Alguns exportadores temem prejuízos e já planejam recorrer à Justiça para se defenderem dos efeitos do acordo. O corretor Sérgio Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, disse que o acordo quebra regras de mercado e afronta o consumidor. Para Carvalhaes, é possível que os países concorrentes não cumpram o acordo. Para integrantes do mercado, não existe meios para fiscalizar se os demais países produtores estarão cumprindo o acordo.


