O anúncio do novo acordo do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI) deve fazer o mercado de capitais reabrir hoje mais tranquilo, segundo analistas. As bolsas terão menos motivos para temer ataques especulativos.
A expectativa é que, com recursos extras disponíveis, o governo consiga reduzir a instabilidade do câmbio, e que os investidores estrangeiros diferenciem mais o Brasil da Argentina.
‘‘O empréstimo de US$ 15 bilhões deve dar uma boa melhorada no humor dos investidores’’, afirma o diretor do Lloyds TSB Pedro Thomazoni.
Ele ressalvou que ainda é preciso saber qual o custo do acordo firmado e, principalmente, qual será a exigência do Fundo para o superávit primário (receitas menos despesas, sem contabilizar os gastos com os juros).
‘‘Se a nova meta pedida for de 3,5%, que é factível de ser alcançada, o acordo será muito bom’’, diz Thomazoni.
Para ele, sem a pressão do Tesouro, fica mais fácil captar financiamentos externos. Além disso, abre-se espaço para os investidores rolarem suas dívidas.
‘‘Se gerar alta dos títulos da dívida externa, a blindagem financeira pode melhorar o mercado como um todo. A Bolsa pode ser beneficiada e esse impacto mais positivo pode até durar uma semana’’, afirma o diretor do Lloyds.
Para Jacopo Valentino, diretor de renda variável do BNP Paribas, ‘‘a reação ao acordo com o FMI pode não ser tão forte porque boa parte da expectativa com o acerto já havia sido embutida no preço das ações’’.
As expectativas com relação à Argentina, entretanto, permanecem sombrias. O anúncio do adiantamento para este mês da parcela de US$ 1,2 bilhão de um empréstimo já firmado entre o FMI e o país vizinho não deve animar o mercado.
‘‘Essa liberação do dinheiro já prometido deixa a Argentina na mesma situação’’, segundo Thomazoni. Ele afirma não acreditar em uma piora da situação no vizinho pela diferença entre os montantes liberados.
‘‘A Bolsa argentina não cai mais porque já está no fundo do poço. Para piorar, só se o país declarar a moratória’’, diz Thomazoni.
‘‘O fluxo de notícias negativas tende a estancar, proporcionando um período de trégua. Com isso, o Dow Jones (índice da Bolsa de Nova York) e a Nasdaq (Bolsa eletrônica norte-americana que reúne empresas de alta tecnologia) voltam a ganhar importância para o mercado brasileiro’’, afirma Valentino, do BNP Paribas.
Dados sobre a produção industrial e a inflação norte-americanas, que saem na terça e na sexta-feira, costumam chamar a atenção dos investidores.
Os índices de preços, entretanto, não devem preocupar. A inflação está relativamente sob controle nos Estados Unidos.
‘‘Se nos próximos dias a Argentina parar de emitir sinais negativos, e as Bolsas norte-americanas continuarem apresentando apenas pequenas oscilações, não vejo motivo para a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) não sustentar uma reação’’, diz Valentino.
Analistas advertem, entretanto, que a volatilidade poderá voltar a crescer, caso a Argentina não encontre uma solução concreta para sua crise.
Os especialistas consultados pela reportagem continuam indicando investimentos em Bolsa para quem pode deixar o dinheiro aplicado por cerca de quinze meses.
‘‘Até lá, as eleições terão passado, as economias do Brasil e dos Estados Unidos já devem ter melhorado, e a Argentina terá resolvido sua crise, para o bem ou para o mal’’, afirma o diretor do Lloyds.
Analistas sugerem ações de telecomunicações, que vêm sofrendo muito com o desânimo no setor. Além disso, por terem liquidez, são as primeiras a ser vendidas.

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