Acordo acabou com clima 'anti-Brasil', diz Botafogo
Ariel Palacios
Agência Estado
De Buenos Aires
Esta foi a semana mais importante do Mercosul nos últimos dois anos. Com estas palavras, o embaixador José de Botafogo Gonçalves, negociador especial do Brasil para o Mercosul, explicou a magnitude do término das negociações sobre o regime automotivo comum. Na quinta-feira ao meio-dia, negociadores brasileiros e argentinos conseguiram acertar em Buenos Aires as regras que regerão as montadoras do Mercosul pelos próximos seis anos. Referindo-se à rapidez com que nesta semana concluiu-se uma negociação que vinha sendo arrastada há anos, o veterano diplomata citou a experiência de seus 40 anos de profissão, e ironizando disse que isto são como discussões de um casal, onde o melhor momento para negociar é no auge de uma briga.
O embaixador Botafogo Gonçalves analisou o clima de tensão existente nos últimos meses entre os dois países. Comentando o recuo do governo e da mídia deste país sobre uma hipotética desvalorização do real, invasões de produtos brasileiros que nunca chegaram a ocorrer e um êxodo industrial argentino ao Brasil que era um blefe, Botafogo Gonçalves disse que o clima mudou, acabou, e essa campanha anti-Brasil vai ser reduzida.
A euforia pelo fim do principal entrave entre os dois países causou um clima de alívio e euforia na Embaixada do Brasil em Buenos Aires. Botafogo Gonçalves até se permitiu uma brincadeira que deixou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Sebastião do Rego Barros, completamente pálido. Ao voltar da reunião com os argentinos, Botafogo Gonçalves disse: Sebastião, deu tudo errado! Estou voltando para o Brasil. Vou fazer as malas! Rego Barros confessou que quase teve um ataque cardíaco. Ainda bem que o Botafogo me explicou rápido que era brincadeira.
A reunião de quinta-feira foi a décimo-terceira realizada para discutir o regime automotivo. Brincando outra vez, Botafogo Gonçalves comentou que isso é um bom exemplo para os supersticiosos que dizem que o 13 dá azar.
Já o vice-chanceler argentino Horacio Chighizola advertiu ontem aos industriais de seu país que eles devem compreender que quando terminar o período de transição do acordo automotivo com o Brasil, no final de 2005, não devem solicitar novos prazos. Esse convênio obtido anteontem em Buenos Aires depois de vários anos de negociação, disse à imprensa, visa a um perfil de integração.
Chighizola comentou que o acordo deverá ser discutido com Uruguai e Paraguai, para que o entendimento deixe de ser bilateral e passe a fazer parte do mercado regional. Por outro lado, ele ressaltou que entre 2000 e 2003 existirá um controle bilateral constituído por um comitê de acompanhamento, integrado pelos funcionários de maior responsabilidade administrativa de cada um dos quatro países.
O acordo automotivo bilateral estabelecido ontem por Argentina e Brasil regerá até 31 de dezembro de 2005, mas o início de sua vigência dependerá do tempo que demorar a inclusão de Uruguai e Paraguai, com suas próprias especificações.
Ele destacou também que ontem começou a terceira rodada de conversações com o Brasil e que nesta fase serão discutidos aspectos macroeconômicos e situações que afetam os setores têxteis, do calçado, frangos, porco, lácteos e açúcar, entre outros.
Por sua vez, o gerente do Departamento Comercial do Banco Nacional de Desenvolvimento do Brasil, Fabio Giandiaggi, manifestou em declarações a rádios que o regime automotivo obtido entre os dois países é um capítulo importante que se encerra e abre espaços para tratar de outros temas da agenda comum.
Para ele, a partir de agora é preciso voltar a definir regras comuns para os próximos anos até chegar a uma situação de livre comércio em setores específicos como o têxtil e o açucareiro que geram atritos.





