São Paulo - O analista de aviação do Banco Safra, Marcelo Mizrahi, afirma que o acidente com o vôo 3054 da TAM, terça-feira no aeroporto de Congonhas, está repercutindo muito mal entre os investidores estrangeiros. ''A visão do estrangeiro é de que há uma desorganização muito grande nos investimentos feitos pelo governo, que não conseguiu resolver a crise aérea até agora.''
O fato da pista de Congonhas ter sido reformada há menos de um mês está pesando muito sobre o acidente, acrescenta. ''O estrangeiro olha para cá (Brasil) e vê um acidente ocorrer com uma empresa em que ele é acionista por causa de uma pista que acabou de ser reformada. É desesperador.''
Mizrahi lembra que o setor de aviação vem crescendo com força em todo o mundo, não apenas no Brasil. ''Aqui, a melhora da renda da população e a mudança de perfil das empresas para 'low cost' (baixo custo) colaboraram para que esse crescimento fosse mais intenso, atraindo o interesse dos estrangeiros.''
O especialista avalia ainda que o investidor estrangeiro não tinha uma visão tão pessimista do setor aéreo no Brasil, mesmo diante da crise observada nos últimos meses. ''A perspectiva de quem olha de fora é diferente do investidor local.''
Ele comenta ainda que, quando houve o acidente com o Boeing da Gol, em setembro 2006, a reação do mercado foi menos negativa do que a esperada para hoje, pois naquele momento não se tinha a dimensão da crise e o setor vinha demonstrando fortes taxas de crescimento.
Mizrahi avalia que o agravamento da crise do setor aéreo deve provocar um reposicionamento dos investidores em outros papéis de infra-estrutura, particularmente CCR e OHL. ''Essas empresas devem se beneficiar da licitação das rodovias federais e do Estado de São Paulo, previstas para este ano. Além disso, elas podem ser favorecidas por um eventual pacote de concessões dentro do setor aéreo, como a construção do terceiro terminal de Guarulhos ou mesmo uma eventual privatização da Infraero.''
O especialista do Safra acredita que a crise aérea pode respingar em outros segmentos com dificuldades de infra-estrutura, como as empresas de logística. ''O que mais me preocupa agora é como o investidor, especialmente o estrangeiro, vai olhar a malha de infra-estrutura do País daqui para a frente.''
Já o analista Eduardo Puzziello, da Fator Corretora, está recomendando aos seus clientes ficar fora do setor de aviação neste momento. Ele afirmou que colocará suas avaliações das ações de TAM e Gol em revisão. ''Esse acidente derruba a credibilidade de todo o setor, e não apenas das empresas'', afirmou, ao comentar o evento ocorrido com o jato da TAM na noite de terça-feira.
''Qualquer avaliação sobre o setor neste momento é precipitada e mera especulação. Mas é claro que o impacto desse novo acidente deverá ser negativo'', complementou, lembrando que as ações de TAM e Gol apresentam fraco desempenho este ano, na comparação com o restante da Bolsa, por conta da crise aérea desencadeada a partir do acidente com o Boeing da Gol, em setembro de 2006.
As ações PN da TAM acumulam alta de apenas 0,74% em 2007, enquanto Gol PN perdia 10,11%. No mesmo período, o Ibovespa subiu 29,65%.
O analista considera que o acidente de ontem deve contribuir para aumentar o coro dos que defendem uma maior restrição no tráfego do aeroporto de Congonhas. ''Com certeza, a questão da necessidade de se restringir o movimento em Congonhas deve ganhar força.'' Ele lembrou ainda que a questão entra em colisão com o plano da Agência Nacional de Aviação Civil anunciada esta semana, de aumentar o número de operações em Congonhas, de 44 para 50 vôos por hora.

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