Rio de Janeiro - Que a economia global está vivendo um momento delicado, nenhum especialista duvida. Mas o consenso termina na hora de escolher a terapia mais adequada. Na última semana, dois dos mais respeitados economistas do mundo bateram de frente numa questão crucial: é hora de acelerar ou de botar o pé no freio da economia mundial?
Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), escreveu em artigo no Financial Times que chegou a hora de os principais bancos centrais fazerem o mundo esfriar, elevando os juros. Isso levaria não só a demanda por commodities a se ajustar à limitada oferta, trazendo os preços de volta a níveis mais razoáveis, mas também forçaria o setor financeiro a um enxugamento, depois dos excessos que levaram à crise financeira e imobiliária nos EUA e outros países ricos.
Para Rogoff, se todas as regiões do mundo tentarem simultaneamente usar políticas fiscais e monetárias frouxas para estimular a demanda e manter a economia crescendo a qualquer preço, ''as restrições das commodities vão limitar globalmente a reação em termos de produção real, e a maior parte do excesso de demanda vai transbordar como inflação mais alta''. Além das baixas taxas de juros, ele critica a política expansionista de corte de impostos e a propensão dos governos e BCs em salvar instituições do setor financeiro com problemas.
Em seu blog no New York Times, Paul Krugman, um dos mais prestigiados economistas americanos, reagiu a Rogoff com a sua costumeira ironia: ''Desde quando a análise econômica diz que a maneira de lidar com a oferta limitada de um recurso (commodities) é reduzir o emprego dos outros recursos (capital, trabalho), de tal forma que o preço relativo do recurso limitado volte para a sua 'tendência'''?
A maioria dos economistas ouvidos pela reportagem dá razão a Krugman neste ponto teórico. De fato, a teoria econômica distingue o ajuste de preços relativos (quando por razões estruturais alguns preços ficam mais altos do que outros) da inflação, que é um movimento de alta generalizada de todos os preços, causado pelo excesso de demanda. A ação do BC visa a impedir a inflação, e não o ajuste de preços relativos, que é necessário, por refletir mudanças na economia real.
Na prática, porém, alguns especialistas acham que Rogoff pode ter razão, já que a alta mundial de preços extrapolou sua origem, que são as commodities, e tem características de inflação generalizada. Ilan Goldfajn, fundador e sócio da Ciano Investimentos e ex-diretor do Banco Central (BC), diz que o Fed (BC americano) e outros BCs já evitaram uma grande recessão, baixando juros e provendo farta liquidez ao mercado. ''Parece que já evitamos o pior, e ninguém mais fala numa crise igual a 1929.''
Para Goldfajn, é hora de desacelerar a economia global, para evitar uma alta maior da inflação. ''A escolha é entre desacelerar agora ou ter de provocar uma desaceleração muito mais forte daqui a algum tempo.''

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