São Paulo - O cenário positivo vivido pelo Brasil hoje não significa que o próximo governante terá pouco trabalho pela frente. A principal diferença em relação aos momentos pré-posse dos últimos anos é que, em vez de debelar crises, sua principal função em termos econômicos será evitá-las. Mais ainda terá de aproveitar a bonança para promover maior crescimento econômico. Nos últimos 12 anos, a média de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 2,4%, bem abaixo do resto do planeta.
  O primeiro passo, segundo especialistas, terá de ser dado na área fiscal. Economistas vêm chamando a atenção para a deterioração das contas públicas brasileiras. ‘‘Este é o grande desafio para melhorar ainda mais as condições do País’’, observa Sergio Werlang, ex-diretor do Banco Central (BC) e atual diretor-executivo do Banco Itaú.
  Ele se mostra especialmente preocupado com o fato de o governo Lula ter ‘‘contratado’’ despesas correntes de US$ 30 bilhões entre 2005 e 2006, que terão impacto nas contas públicas nos próximos anos. Além disso, Werlang lembra que parte do superávit primário foi obtida com receitas extraordinárias. Para ele, essa piora pode ser revertida. ‘‘Se nos comprometermos com a austeridade fiscal no médio e longo prazos, poderemos atingir o grau de investimento em 2008 ou até antes, no fim de 2007.’’
  Grau de investimento é uma nota concedida pelas agências de classificação de risco a países e empresas que tenham baixa probabilidade de dar calote. A receita que o ex-diretor do BC recomenda é a manutenção do superávit primário de 4,25% por um período de mais 5 ou 7 anos. ‘‘Com isso, a relação dívida/PIB poderia ir para algo entre 30% e 35%.’’ Em setembro, esse indicador estava em 50,1%.
  Para André Lóes, economista-chefe do Banco Santander Banespa, o panorama atual é claramente menos dramático do que o do início dos governos anteriores, mas, em compensação, mais complexo. ‘‘Antes não havia saída. Ou os presidentes faziam o que deveria ser feito ou o País quebrava’’, observa. ‘‘Hoje, ele poderá fazer suas escolhas com tranqüilidade.’’ Isso significa que a responsabilidade do presidente eleito sobre o desempenho futuro da economia será maior. ‘‘Se não fizer nada, o Brasil continuará crescendo de forma medíocre.’’
  Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central (BC), acredita que ‘‘a falta de necessidade de apagar incêndios pode levar à inércia’’. ‘‘O governo pode não fazer nada’’, alerta. A exemplo de seus colegas, ele avalia que o foco do principal governo deve estar na promoção de taxas mais elevadas de crescimento econômico. (A.E.)

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