O governo tem no próximo ano uma ‘‘última chance’’ para retomar o processo de privatizações antes de 2002, ano que deverá ser totalmente tomado pela disputa pela sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso. Num ano sem eleições e favorecido pelo clima positivo criado pela venda do Banespa, o cenário pode estimular uma retomada das desestatizações, que perderam fôlego desde a venda da Telebrás, em julho de 1998.
Para isso, no entanto, o governo terá de enfrentar uma penosa discussão política, equacionar riscos regulatórios e, sobretudo, correr contra o tempo para que esses problemas sejam resolvidos antes de 2002, quando entram em cena as eleições presidencial e estaduais.
Essa é a síntese de opiniões colhidas entre economistas, membros do governo, analistas políticos e empresários ligados à privatização consultados nos últimos dias pela Agência Estado. A prioridade de retomar ou não a privatização divide opiniões.
De um lado, governo e empresários acreditam que o programa tome força no próximo ano, particularmente para o setor de energia elétrica e saneamento básico. De outro, agentes do mercado financeiro – em tese, os agentes financiadores – estão bastante céticos quanto a um novo ciclo de privatizações.
A favor do primeiro grupo, além da ausência de eleições, existe uma longa lista de ativos privatizáveis e uma espécie de renovação do espírito privatista com o sucesso da venda do Banespa (inclusive em termos judiciais). Há ainda a Lei de Responsabilidade Fiscal, que pode levar Estados e municípios mais apertados a adotar a privatização de seus ativos (principalmente no setor de saneamento) como forma de engordar os minguados recursos para investimentos e custeio.
Fatores contrários a uma nova onda de privatizações também não faltam: está claro para o governo que essa retomada envolve desgaste político – particularmente sobre as grandes geradoras da Eletrobrás (Furnas, Chesf e Eletronorte) –, justamente num ano em que a equipe econômica pretende retomar questões igualmente complexas, caso da reforma tributária ou do término da reforma previdenciária. Além disso, não há a necessidade dramática de mais caixa para o Tesouro ou da entrada de recursos externos, motivo citado pelos analistas de mercado como principal causa da desaceleração do programa a partir de 98.
Mas, apesar do quadro cambial e de caixa público não ser dos piores, a necessidade de recursos sempre existe, adverte o economista Raul Velloso. Segundo ele, essa questão dependerá, essencialmente, do que o governo vai priorizar para o próximo ano. Velloso cita um bom exemplo de como essa decisão pode estar ligada às prioridades políticas do Planalto: ‘‘Imagine se alguém chega para o Fernando Henrique e diz que ele terá com as privatizações uma folga de R$ 20 bilhões para anunciar de uma só vez o pagamento do reajuste de FGTS de metade dos trabalhadores. É um tremendo ganho político’’, comenta.
Sobre os recursos externos, ele considera questionável a falta de necessidade de mais dólares por conta da atual folga dos investimentos diretos. ‘‘O investimento direto não é eterno. O que se vai pôr no lugar desses recursos daqui um ou dois anos se não houver reação da balança comercial?’’ Velloso lembra que uma crise acentuada na Argentina, por exemplo, poderia reduzir drasticamente o fluxo desses investimentos.
Também o cenário externo, que tende a continuar turbulento em 2001, pode incentivar, sobretudo o governo federal, a acelerar as privatizações. A venda de estatais pode ser prejudicada por um eventual aperto no crédito internacional, mas não é inviabilizada, como ficou demonstrado na bem-sucedida venda do Banespa ao Santander, em plena crise da Argentina. Além disso, o fato de o próximo ano não ter eleições pode criar um ambiente político menos hostil à venda de estatais definidas, como é o caso de alguns bancos estaduais, segundo o cientista político Sérgio Abranches. (André Palhano e Josué Leonel).

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