Cláudia Lopes
De Londrina
O jornalista econômico Aloysio Biondi, 63 anos, é radicalmente contra as privatizações da forma que estão sendo feitas no Brasil. Em abril passado ele lançou o livro ‘‘O Brasil Privatizado – um balanço do desmonte do Estado’’, pela Editora Fundação Perseu Abramo, que já teve 120 mil exemplares vendidos. Com 43 anos de profissão, Biondi atualmente mantém colunas e colabora com reportagens e análises para jornais e revistas. Seu primeiro emprego foi em 1956 no jornal Folha de São Paulo, onde ocupou o cargo de editor-executivo do caderno de Economia. Além de trabalhar em outros jornais de renome nacional, ele foi editor de economia das revistas Veja e Visão. Na última sexta-feira, Aloysio Biondi fez uma palestra na Associação Médica de Londrina, falando sobre o processo de privatização ocorrido no País. O evento foi promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Londrina. Na sexta-feira de manhã, ele recebeu a reportagem da Folha na recepção do hotel em que estava hospedado e, entre um cigarro e outro, falou sobre o plano real, fez críticas ao presidente Fernando Henrique Cardoso e a algo que diz não considerar como ‘‘política econômica’’ e que teria destruído a indústria, a produção e o emprego nacionais. Confira a entrevista abaixo:

Passamos de 1º
exportador de
grãos para 2º
maior importador
‘O governo mentiu
para os brasileiros.
Jogou o consumidor
contra quem produz’
Folha : Como crítico ferrenho do Plano Real, o senhor identifica algum ponto positivo no programa econômico de FHC?
Biondi: Não sou crítico ferrenho. O problema é que esse governo não tem políticas agrícola, industrial e tecnológica. Minha crítica é contra a redução das tarifas de importação, que deveria durar só algum tempo, e não destruir a indústria nacional, como aconteceu. Sou um crítico ferrenho do modelo econômico usado no Brasil e que não tem nada a ver com o do resto do mundo. Fazendo o discurso de que estaria protegendo o consumidor, o governo jogou a opinião pública contra o agricultor e o empresário brasileiro, alegando que eles se favoreciam da reserva de mercado.
Folha: No que a política econômica brasileira difere da adotada por outros países?
Biondi: Em primeiro lugar, o governo FHC mentiu. No caso do trigo, por exemplo, o Brasil chegou a produzir 6 milhões de toneladas mas a produção caiu para 2,3 milhões no ano passado e mesmo assim o produtor não consegue vender porque os argentinos comercializam o trigo deles com prazo de 400 dias para pagar e juros de 8% ao ano. O governo cometeu um crime contra a agricultura e contra a indústria nacional. Ele abriu o mercado sem criar condições para os brasileiros competir. Com a conversa de que abrir forçaria os produtores a se modernizarem, o governo deixou de comprar a produção e passou a dizer para os agricultores negociarem as safras em Bolsa de Mercadorias. E no caso do algodão, a redução da tarifa de importação para 0 destruiu a produção em um terço. Agora, é que está em 3%. Isso não acontece no resto do mundo. Em outubro passado, quando houve expectativa de uma grande safra mundial excedente, a União Européia, que já tinha uma tarifa de 8%, criou uma tarifa de cerca de 25% para evitar que os produtos mundiais concorressem com os deles. Lá fora acontece o contrário, eles continuam se protegendo e o FHC sabe disso.
Folha: O plano Real, em sua opinião, é um fracasso completo?
Biondi: Não vejo nada de positivo. Como eu posso ver? Eu não posso acreditar num governo que dá calote em pessoas que trabalharam em frentes de trabalho no nordeste. Em dezembro passado, como choveu em algumas regiões, muita gente foi dispensado da frente de trabalho em janeiro. Mas até setembro não tinha recebido o salário. Este governo é amoral. Eu nunca vi um governo capaz de dar calote em flagelado de seca.
Folha : O governo considera a estabilidade como um ganho da população com o Plano Real. Concorda? Ou o desemprego trouxe uma instabilidade maior do que o conforto proporcionado pelos preços em equilíbrio?
Biondi: A grande herança que o Plano Real poderia ter deixado é o fim da mentalidade de correção monetária. Há alguns anos, quando a gasolina subia num dia, a diarista pedia aumento no outro dia. Tínhamos a síndrome da correção monetária. A partir do momento em que a estabilidade está em cima da recessão e do desemprego, não adianta... As pessoas não podem comprar. A produção de automóvel caiu de 180 mil unidades para as atuais 120 mil. Isso significa uma queda de 41% nas vendas no varejo. No mês passado, antes do fim do acordo emergencial, quando todo mundo fez promoção de preço, foram vendidos 115 mil veículos no País, contra os 170 mil comercializados no mesmo período em 98.
Folha : Então é melhor o emprego do que a estabilidade?
Biondi: Não estamos entre uma coisa e outra. Tem que haver estabilidade com emprego. É possível ter os dois. O desemprego foi gerado por um escancaramento do mercado para o capital estrangeiro. Enquanto a tarifa modal, que é paga pela maioria dos produtos que entram no Brasil, é de 0, o Japão tem uma tarifa de 16% e, a Coréia, de 13%. No primeiro momento, eles reduziram as tarifas para evitar remarcações de preços. Mas era para durar seis meses... O maior crime deste governo é ter acabado com a identidade nacional. Ele jogou o consumidor contra o produtor, chamando-o de caloteiro; o contribuinte contra o funcionário público, chamando-o de marajá. Viramos um povo que não é solidário, onde um não se identifica com o outro. O governo matou a alma nacional. Quando a ex-ministra da Fazenda, Zélia Cardoso, começou o processo de abertura, no plano Collor, havia um programa para reduzir as tarifas, que eram de 70%, com crédito para as empresas se prepararem para enfrentar esta redução. Não estou reabilitando o governo Collor... Estou dizendo que este governo simplesmente escancarou a economia. Tanto que a Argentina e Paraguai estão produzindo para exportar para a gente. A produção argentina agrícola aumentou 40% em quatro anos. É exatamente a política inversa à nossa, que passamos de primeiro exportador de grãos para segundo maior importador do mundo. Quero frisar que não existe esta dualidade: ou inflação ou destruição da economia nacional, ou desemprego ou recessão. Tem que fazer tudo isso junto. Uma política econômica tem que visar a geração de renda, emprego e consumo.
Folha : A estabilidade favoreceu alguém ou não?
Biondi : A estabilidade teria que dar tranquilidade social. Mas esta estabilidade foi feita às custas de uma recessão, de um grande desemprego e, logo, às custas de miséria. Portanto, não favoreceu.
Folha : Em entrevista recente, o senhor disse que o Brasil está mais longe do país com que sonhamos um dia, repetindo o economista Celso Furtado. Em sua opinião, a globalização poderia ter sido evitada? O País não correria o risco de virar uma ‘‘ilha’’ na economia mundial e pagar caro pelo isolamento?
Biondi : Eu citei esta frase do Celso Furtado porque levamos três décadas para construir um País que entrou nos anos 90 como oitava economia mundial. Isto significa que gerações de brasileiros ou pagaram impostos adicionais, empréstimos compulsórios, ou tiveram que apertar os cintos, isso sem falar nas milhões de crianças pobres que morreram de fome, nos milhões de brasileiros que ficaram sem assistência médica ou analfabetos já que o Estado não podia dar estas coisas a eles porque estava gastando com a construção da economia de um país que era subdesenvolvido e que tinha que investir para sair desta condição. É a história de um povo brigando para não ser mais um país pobre. Entramos nos anos 90 com saldo positivo na balança comercial, ou seja, exportando mais do que importávamos. Antes do FHC, a balança tinha saldo positivo de US$ 12 bilhões por ano. Em cinco anos, nós criamos um desemprego brutal, reduzimos a produção agrícola, a produção de carros e toda a base de tecnologia nacional foi destruída. Hoje, o celular é 100% importado. O aparelho só é montado aqui. Só a Motorola utiliza 5% de peças nacionais. Não podíamos evitar a globalização e virar uma ilha em relação ao resto do mundo mas era preciso haver uma política nacional.
Folha : Há pouco tempo tivemos que desvalorizar a moeda para tentar aumentar a exportação e a entrada de dólares. Por que isso não aconteceu?
Biondi : A Coréia, que já tinha aumentado as exportações para os Estados Unidos no ano passado em 30%, desvalorizou sua moeda, aumentando as exportações em mais 30% no primeiro trimestre deste ano. Mas isso aconteceu porque as empresas da Coréia são coreanas. Nós desvalorizamos nossa moeda e não aconteceu nada porque, na multinacional, quem decide quem exporta é a matriz. Inclusive, estas empresas ‘‘brasileiras’’ reduziram as exportações em 40% ao invés de aumentar e deveriam estar sendo cobradas já que o programa de incentivos para exportação prevê que elas podem comprar máquinas, peças e componentes sem pagar imposto de importação e ainda ter isenção no imposto de renda. Apesar de não estarem cumprindo sua metas, ninguém as cobra.
E a exportação não aumenta no Brasil porque uma multinacional como a Ford, por exemplo, traça metas como produzir alguns modelos de carros aqui para vender para a Argentina e vice-versa e abrir uma fábrica no México para vender para a África. A Ford faz a divisão do mercado. Numa economia desnacionalizada, o que o governo faz não interessa, é a multinacional quem resolve. O Brasil tinha que entrar na globalização mas isso não quer dizer que as multinacionais possam instalar suas fábricas aqui e importem 100% de matéria-prima, gerando empregos em seus países. Que globalização é esta? Temos que obrigá-las a usar índices mínimos de componentes nacionais, senão quebramos o País. A China e a Índia crescem 8% e 6% ao ano, respectivamente, e não fizeram esta abertura indiscriminada. Nós temos um mercado gigantesco e as multinacionais viriam para cá de qualquer jeito.
Folha : Que outra alternativa o Brasil teria à globalização?
Biondi : O que foi feito no Brasil não tem nada a ver com globalização. Nenhum país reduziu as tarifas deste jeito. O que fizemos aqui foi escancaramento da economia e destruição da produção nacional e do emprego.
Folha : Em sua avaliação, o brasileiro é um povo desalentado? Dizer que FHC ‘‘matou a alma nacional’’ não é uma conclusão drástica? Até que ponto a crise mundial tem responsabilidade na situação que vivemos?
Biondi : O FHC matou a alma nacional, mas nós podemos ressucitá-la. Eu não sou um desalentado. O jovem não concorda com o que está aí, mas não tem outras referências. Quem tem 20 anos já encontrou este País a caminho da esculhambação. No momento, o povo brasileiro está desorientado. Um povo pode enfrentar guerra e domínio de invasor mas continua querendo recuperar sua terra e ser um povo. O brasileiro não sabe o que quer, neste momento, e foi atirado um contra o outro. Ele está absolutamente descrente dos políticos e das lideranças empresariais. Mas há esperança. É preciso descer no inferno para começar a ascensão de novo.
Folha : O senhor já percebe estas mudanças?
Biondi : Sim, principalmente no que se refere às privatizações. As pessoas estão começando a discutí-las. O que está acontecendo com o petróleo é uma indecência.
Folha : Agora é tarde? Dá para reverter as privatizações?
Biondi : Não, não é tarde. O governador de Minas Gerais, Itamar Franco, venceu uma briga na justiça contra norte-americanos, que compraram um terço da operadora Cemig e pelo acordo de acionistas passaram a mandar na empresa. Isto também foi feito em outros lugares do Brasil. Mas o caso da Cemig é ainda mais indecente por ter sido usado 100% dos recursos do BNDES. Embora o banco fosse proibido de emprestar dinheiro para grupo multinacional, o FHC fez um decreto cinco dias antes do leilão da Cemig autorizando o empréstimo de 50%. No leilão, o grupo americano ofereceu US$ 1,1 bilhão. A metade foi emprestada normalmente, com juros de 12%, 14% ao ano. Só que o BNDES também emprestou a outra metade com uma nota promissória de seis meses e juros de 3,37% ao ano. Isso é uma aberração. O problema é que a sociedade está desinformada sobre essas coisas.
Folha : Todas as privatizações são negativas ou temos que privatizar alguns setores?
Biondi : Nem todas são negativas. Há empresas que foram parar nas mãos do governo por causa de problemas dos grupos privados, como a Siderúrgica Paulista, a Cosipa. Hotéis, por exemplo, podem ser privatizados. Mas não podemos vender setores básicos e estratégicos como energia elétrica, telefonia e petróleo. A exportação de minério não pode ficar nas mãos de um grupo privado, que pode ser vendido para um grupo estrangeiro. E se este grupo fechar uma mina brasileira por estar interessado numa mina da África do Sul, deixando de gerar os dólares que precisamos para pagar nossos compromissos? Nós precisamos desses dólares mas a empresa não tem nada com isso. Nestes casos, o ideal é uma mistura entre governo, iniciativa privada e estrangeira.Autor de ‘‘O Brasil privatizado’’, jornalista diz que o governo FHC escancarou o mercado brasileiro para o capital externo
Josoé de CarvalhoDÍVIDA SOCIALAloysio Biondi: ‘‘Não posso acreditar em um governo capaz de dar calote em flagelado da seca. No Nordeste, muitos foram dispensados das frentes de trabalho em janeiro, por causa das chuvas, sem receber os salários. É amoral’’

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