Abate pode gerar danos ambientais
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terça-feira, 27 de dezembro de 2005
Fernanda Mazzini<br>Reportagem Local 
Além dos prejuízos econômicos, a febre aftosa pode trazer um outro dano aos paranaenses. Se a decisão dos técnicos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab) for sacrificar as cerca de 2 mil cabeças da Fazenda Cachoeira, localizada em São Sebastião da Amoreira (47 km ao sul de Cornélio Procópio), a atitude pode trazer sérios danos ao meio ambiente caso todos os bovinos sejam enterrados na propriedade. A decisão sobre o abate dos animais pode sair hoje durante reunião em Curitiba.
A princípio, espaço não seria problema porque a fazenda tem quase 1,5 mil alqueires. No entanto, segundo o gerente André Carioba Filho, a propriedade tem 46 alqueires de água. São 22 represas espalhadas em toda a sua extensão, que são abastecidas por minas d'água. ''No Mato Grosso do Sul (onde já foram confirmados 33 focos da doença) os animais foram enterrados nas próprias fazendas e se for adotado sistema semelhante aqui, vai gerar um outro problema. Não vamos concordar'', afirmou.
Conforme a Folha publicou ontem, Carioba Filho disse que precisa de uma definição sobre o sacrifício dos animais porque não teria mais condições de ficar com os animais na propriedade. Pelo menos 1,8 mil cabeças estão prontas para o abate comercial desde o dia 10 de dezembro. ''Pretendo recorrer à Justiça para conseguir recuperar esses danos. O meu produto é diferenciado e, por isso, o seu valor também'', afirmou. Ele também deve pedir uma perícia judicial para pesar todo o gado, no caso de um eventual abate.
Segundo o gerente, os espelhos d'água são afluentes do Rio Congonhas que, por sua vez, desemboca no Rio Tibagi. ''Além disso, a fonte mais importante fica próxima ao confinamento e abastece todos os animais da fazenda. Não concordaremos em enterrar esses animais porque ficaremos com toda a água contaminada e depois não poderemos mais usá-la'', comentou. Segundo ele, em meados do próximo ano, será iniciado um outro confinamento. As outras represas ainda abastecem as famílias que vivem no local (entre 70 e 80 pessoas) e a irrigação.
''Se quiserem enterrar os animais aqui certamente irei avisar o IAP (Instituto Ambiental do Paraná). Não iremos arcar com mais esse prejuízo'', salientou Carioba Filho. Segundo ele, a Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (Sudersha) teria um estudo com coordenadas geográficas e a vazão de cada mina na Fazenda Cachoeira. A reportagem tentou entrar em contato com a Sudersha, mas o órgão está em férias coletivas.
Procurado pela reportagem, o chefe do IAP de Cornélio Procópio, José Mariano de Macedo, disse que não tinha conhecimento das minas d'água e das represas da fazenda. Segundo ele, se houver o sacrifício e se os animais forem enterrados no local será preciso um estudo específico para avaliar a situação descrita por Carioba Filho. ''É preciso avaliar a capacidade de perculação (absorção) do solo e a profundidade do lençol freático'', observou. No entanto, Macedo informou que a decomposição de matéria orgânica gera nitratos que alteram a qualidade da água.


