Abate de vacas não poupa as jovens nem as prenhas
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sábado, 23 de outubro de 2004
Vanessa Navarro<br> Reportagem Local 
Sagrada para os hindus, tida como símbolo da fertilidade e da vida, a vaca tem encontrado, no Brasil, destino oposto ao das honrarias indianas: o abate. O País passa por uma fase de baixa do ciclo pecuário, na qual os preços reduzidos levam os criadores à matança de vacas além das taxas normais de descarte.
Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou aumento superior a 34% no abate das fêmeas no segundo trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2003, quando já se registrava um índice mais de 40% maior que o ano anterior. A tendência é confirmada por pecuaristas do Norte do Paraná, que apontam elevação na venda de vacas para abate aos frigoríficos.
Nessa dinâmica de mercado, nem as prenhas são poupadas. Guardadas as peculiaridades religiosas ninguém espera que os brasileiros adorem as vacas em festas ou as considerem bem-vindas dentro de suas casas, como acontece na Índia o abate indiscriminado desses animais pode ser encarado, no mínimo, como um desperdício da natureza. Quanto mais precoce o corte ou descarte, maior a perda de bezerros e leite que as fêmeas teriam potencial para gerar.
O veterinário e diretor-técnico da Emater, Robson José Curty, explica que uma vaca de bom padrão, criada a pasto, tem em média oito crias ao longo da vida, começando a reproduzir com idade de 26 a 28 meses e parindo com intervalos de 11 meses. A cada lactação, que comumente dura 270 dias, a produção de leite gira em torno de 3,2 mil a 3,5 mil litros. Seguindo essa estimativa, são mais de 25 mil litros de leite que deixam de ser produzidos, cada vez que o produtor opta por liquidar uma vaca.
''É claro que nós podemos lamentar isso, mas o produtor pensa objetivamente. Ele fica desmotivado com os preços de pecuária congelados no mercado interno, e acaba abatendo mais animais do que o necessário'', diz Curty, mencionando que esse processo se repete a cada cinco ou seis anos. Somam-se a isso os reflexos da estiagem do inverno sobre os pastos e o avanço dos grãos em muitas propriedades. ''Ao invés de fazer leilões para recria, estão mandando fêmeas jovens para o abate'', acrescenta.
Com a experiência de quem acompanhou vários ciclos pecuários desde os anos 1960, o diretor critica a falta de prevenção dos produtores. ''Está até na Bíblia: existe a época das vacas gordas e a época das vacas magras. Todo cidadão tem que ter uma poupança para se prevenir contra os tempos difíceis, e no caso da pecuária a poupança é a comida dos animais. Como é possível que, já conhecendo as dificuldades e sabendo da necessidade de consumo do rebanho, o produtor não tenha a previsibilidade de guardar alimento?'', questiona.
A agropecuarista Regina Marchesi, que trabalha com cria, recria e engorda em Cornélio Procópio, dá o exemplo de como é possível evitar o abate precoce de fêmeas, inclusive em propriedades onde a soja tomou lugar de pastagens. Ela mesma aumentou a área destinada à agricultura em suas terras, mas fez a reforma das pastagens para comportar mais animais em menos alqueires.
''Eu fiz apenas o descarte normal daquelas vacas com mais idade, sem habilidade materna. Mas sabemos que vários produtores estão descartando fêmeas prenhas e jovens para se dedicar à agricultura, e já há uma preocupação do governo com essa situação'', observa. Segundo ela, o problema tem sido bastante discutido e esteve entre os temas de uma palestra realizada na SRP, no último dia 8.
Regina afirma que o sacrifício das matrizes é preocupante porque implicará em menos bezerros e bois, justamente num período em que a demanda nas exportações será maior. Ela acredita que as atividades pecuárias e agrícolas podem e devem coexistir. ''Na mesma área em que se planta soja no verão, por exemplo, você pode plantar aveia para ter suporte no inverno e não ter que abater fêmeas. O produtor não deveria descartar a pecuária. Temos mercado para todas as categorias, incluindo bois, vacas, novilhos etc.'', conclui.


