O abate irregular de carne bovina sempre foi um tema muito discutido no agronegócio e acreditava-se que os percentuais dessa ação fossem altíssimos em todo o território nacional, mesmo sem muitos dados consolidados sobre o assunto. Porém, uma pesquisa divulgada ontem pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, aponta que os números não são tão alarmantes como se imaginava.
Durante o período de um ano, a partir de abril de 2013, os pesquisadores compilaram dados de 14 estados brasileiros de diferentes regiões – o que correspondeu a 85% do rebanho abatido em 2012 – e descobriram que em média 10% dos abates aconteceram sem nenhum registro de fiscalização sanitária municipal, estadual ou federal. No Paraná, os números divulgados fecharam ainda mais positivos, com apenas 5,5% dos abates feitos em condições irregulares, um dos menores índices do País. A melhor média acabou sendo da região Sul (5,10%), seguido do Centro-Oeste (5,70%), Sudeste (9,50%), Nordeste (10,40%) e Norte (11,20%).
Em linhas gerais, para chegar aos resultados, a equipe do Cepea estimou a oferta de animais para abate e também a quantidade de animais necessária para atender a demanda nacional por carne bovina, tudo referente ao ano de 2012. Esses volumes foram, então, comparados ao abate oficial, com fiscalização sanitária. A diferença é o "não fiscalizado", expressão adotada pelos autores em detrimento de "abate clandestino", que pode render interpretações não cobertas pela pesquisa.
De acordo com uma das pesquisadoras responsáveis pelo trabalho, Silvia Miranda, os números finais, de fato, surpreenderam. "Esse é o primeiro levantamento que realizamos com uma metodologia consolidada. Antigamente, se estimava que tais abates giravam em torno de 40%, mas não havia um levantamento para comprovar esse dado."
Entre as justificativas do Cepea que explicam os baixos percentuais no País estão o fortalecimento do aparato legal sanitário, com foco em qualidade de processo, o salto tecnológico e gerencial dos frigoríficos e a internacionalização do setor de carne brasileiro. "Há 20 anos, por exemplo, o País não possuía instituições com controle sanitário tão rigoroso, com sistema informatizado, de monitoramento e registros desses animais", relata a pesquisadora.
Em relação à diferença de resultados entre os estados do Norte e Nordeste em comparativo com a região Sul, que conquistou os melhores resultados, ela explica que os frigoríficos do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina se profissionalizaram e os consumidores são mais conscientes no sentido de saber de onde vem o produto. "A diferença tecnológica é muito grande entre alguns estados. Outro fator é que aquelas regiões que geralmente trabalham com pecuária de corte têm um rebanho mais profissionalizado comparado com o rebanho misto, por exemplo, destinado a carne e leite".
Os pesquisadores garantiram ainda que o Paraná, através da Secretaria da Agricultura (Seab), e outras entidades, enviaram todos os dados solicitados para a pesquisa, o que tornou o levantamento do Estado completo e com menor margem de erros.

Imagem ilustrativa da imagem Abate de bovinos sem registro no PR é um dos menores do País