A revolução digital está chegando à televisão brasileira, com a promessa de levá-la ao mundo da alta definição de imagem e som, um realismo de causar inveja à própria realidade. A qualidade da TV digital já começa a conquistar admiradores, como foi o caso do público que, recentemente, em Londrina, assistiu à exibição digital da minissérie Hary to Natsu, da estatal japonesa NHK. ''A definição de imagem e som é algo absurdo'', entusiasma-se o jornalista Rafael Massi, um dos espectadores do evento.''A evolução é como a do antigo vídeo para o DVD.''
A TV digital também promete pôr o mundo ao alcance do controle remoto, embalado para presente na principal diferença com o formato analógico: a interatividade. A tecnologia digital é mais compacta, sendo que, na mesma faixa de transmissão, cabem mais informações de som e imagem do que no sistema convencional. Assim, o telespectador pode comprar na hora o livro que um personagem da novela exibe no merchandising ou fazer reservas para o teatro, seguindo as dicas de cultura do telejornal.
Porém, o brilho de utilidades da TV que vem por aí pode ser ofuscado pelas dificuldades com a tecnologia enfrentadas pelo Brasil, que ainda precisa realizar a inclusão digital. Na outra ponta da questão, o governo federal deve decidir hoje ou no início da próxima semana entre um dos três padrões de TV digital disponíveis - americano, europeu e japonês - em debate que não é só técnico, mas especialmente econômico e político.
Em entrevista à Folha, o jornalista Ethevaldo Siqueira, especializado em Tecnologia da Informação e Telecomunicações, e colunista do jornal 'O Estado de S. Paulo', compara a decisão a ser tomada pelo governo à compra de um carro novo. Antes de optar por uma Ferrari, pondera, o Brasil precisa escolher qual ''veículo'' é o mais adequado para o país.
''É preciso perguntar o que o Brasil quer fazer com a televisão digital'', questiona Siqueira. E completa: ''Aí nós vamos ver que é preciso levar em conta primeiro a interatividade. Por meio dela, o telespectador poderá usufruir de facilidades como o governo eletrônico, tendo acesso a serviços públicos, informações sobre previdência e impostos, além de marcação de consulta no SUS''.
Em relação à melhor opção, Siqueira defende a idéia de que o Brasil pode fazer um sistema híbrido, usando um dos três padrões, ou seja, basicamente complementar com tecnologia brasileira.
Pesquisadores da USP, Unicamp, Mackenzie, Intel, da Universidade da Paraíba e da Universidade de Santa Catarina, entre outras, envolvendo cerca de 90 profissionais, debruçam-se sobre o assunto. ''É uma área em que o país pode contribuir e que dará características bem mais brasileiras ao sistema, adaptado às nossas necessidades e realidade'', explica Siqueira.
Para Frederico Nogueira, vice-presidente da Associação Brasileira dos Radiodifusores (Abra), entidade que reúne as redes Bandeirantes, Rede TV e SBT, a adoção pelo país de um padrão híbrido para a TV digital tem seus riscos. ''A academia brasileira desenvolveu alguns softwares, o que é importante'', concorda, mas com uma ressalva: ''desde que não se transforme num Frankenstein, que somente o Brasil vai usar''.
Enquanto a discussão sobre o melhor padrão para a TV digital brasileira segue no Congresso, a expectativa do telespectador é de que a tecnologia contribua para melhorar a qualidade da programação. Porém, uma coisa é certa: a tecnologia não livrará o público de programas como o Big Brother Brasil. A diferença é que vai espiar tudo em alta definição, com a chance de ''limar'', em tempo real, os participantes.

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