'A Telebrás deu certo porque não tem concorrência'
A Telebrás deu certo porque não tem concorrência
Folha: Por que se fez necessário a privatização do Sistema Telebrás, considerado uma estatal rentável? O senhor é favorável à privatização?
Fernando Xavier Ferreira: Sou um ardoroso defensor da privatização. O problema é que o Estado não tem condições de ser eficiente o tempo todo. Ele passa por momentos de eficiência.
Folha: Mas a Telebrás é considerada uma das melhores empresas de telefonia, sendo uma das mais lucrativas. Mesmo assim, o senhor defende a privatização?
Xavier Ferreira: A Telebrás deu certo porque não tem concorrência. Mas ela passou por anos terríveis, à beira de um colapso. Não dá para garantir continuidade com uma estatal. É imperioso privatizar tudo.
Folha: Partidos de oposição, como o PT, defendem a manutenção das estatais. O senhor acredita que o PT poderia alterar o quadro de privatização da Telebrás, caso chegasse ao governo?
Xavier Ferreira: O PT é vencido pela realidade dos fatos. Contra os fatos não há argumentos. Temos a sorte de termos a Telebrás lucrativa, mas isso pode não ter sempre uma continuidade.
Folha: A privatização do Sistema Telebrás representará demissões?
Xavier Ferreira: Tomamos o cuidado de buscar o ganho de produtividade na Telebrás nos últimos anos. Em 1994, nós tínhamos 95,6 mil empregados. Hoje, temos 87 mil. As pessoas saíram porque pediram aposentadoria ou aderiram a um Plano de Demissão Voluntária. Os cortes que aconteceram serão insignificantes perto do número de empregos que serão gerados com a privatização.
Folha: Qual a avaliação que o senhor faz da concessão da Banda B da telefonia celular para a iniciativa privada?
Xavier Ferreira: Não se pode manter a concessão dos serviços nas mãos do governo federal. O Estado não consegue viabilizar a competição e não consegue administrar de maneira eficiente as suas empresas. Estão aí os exemplos como a CSN, que dava milhões de reais de prejuízo. Hoje, os funcionários estão satisfeitos e a empresa passou a ser lucrativa. A concessão da Banda B era necessária para abrir o mercado. Ele vai permitir a competição entre as empresas.
Folha: Com a entrada das empresas privadas na exploração da Banda B da telefonia celular, a Banda A, que é operada pelo Sistema Telebrás, não vai perder competitividade?
Xavier Ferreira: Sim. Vamos perder competitividade e é por isso que vamos privatizar também a Banda A. Hoje, nós somos escravos do processo competitivo. Com o mundo globalizado, é necessário manter a competitividade e isso é muito difícil nas mãos do Estado.
Folha: As empresas estrangeiras puderam participar com até o limite de 49% de uma concessão para a Banda B. Agora, o Ministério das Comunicações estuda a possibilidade de ampliar essa participação na privatização da Banda A e de todo o Sistema Telebrás. O senhor é favorável a esse crescimento da empresa estrangeira nas telecomunicaçãos do País?
XAvier Ferreira: Não é possível prescindir da participação do capital estrangeiro. Capital não tem pátria. O povo não tem interesse se quem tem lucro é uma empresa nacional ou estrangeira. O povo quer saber de ter um bom serviço. O problema do capital é secundário.
Folha: Mas a empresa nacional não ficaria em desvantagem?
Xavier Ferreira: O protecionismo é maléfico, mas é necessário não criar privilégios para o capital estrangeiro. Até porque nenhuma empresa estrangeira vai se instalar no Brasil sem se unir a um sócio nacional. A empresa nacional é importante, pois conhece a cultura e a infra-estrutura do País.
Folha: O que muda para o usuário de telefone com a privatização?
Xavier Ferreira: Vamos ter mudança na qualidade do serviço. Vamos ter a competição entre as empresas e quem sai ganhando com isso é a população. Num curto período poderemos ter mais de uma empresa atuando num mesmo Estado. Aqui no Paraná, por exemplo, poderemos ter a Telepar privatizada, a Embratel e uma terceira empresa prestando o mesmo serviço ao usuário, todas competindo.
Folha: No ano passado, o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, foi à imprensa e declarou que todo mundo teria telefone a um preço de R$ 80. Só que as pessoas procuram as Teles e descobrem que não há telefone disponível.
Xavier Ferreira: Na minha avaliação é melhor ter 2,5 milhões de pessoas esperando um telefone de R$ 80 do que ter esse número de usuários aguardando um telefone de R$ 2 mil. Temos que lembrar que houve duas grandes ondas de demanda no País. A primeira com a estabilização da economia e a segunda quando os preços caíram. Não podemos imaginar que a infra-estrutura do Sistema Telebrás pudesse crescer na mesma proporção que cresceu a demanda. Seria a mesma coisa que pedir para um estudante que recém entrou no primeiro ano de engenharia resolver uma questão de cálculo diferencial. É necessário esperar um pouco.
Folha: A Telebrás não deveria ter feito investimentos maiores nos últimos anos?
Xavier Ferreira: Os nosssos investimentos superam qualquer expectativa. Temos uma média de 100% de crescimento a cada ano, desde 1994. Em 94, nós tínhamos 574 mil celulares instalados no País. Em 95, eram 1,2 milhões. No ano seguinte, havia 2,4 milhões de linhas e no ano passado eram 4 milhões. Até o final do ano, mais 2,5 milhões de terminais da telefonia convencional serão instalados.
Folha: O governo federal estimava que teria uma demanda tão grande de pessoas interessadas em um telefone fixo e celular?
Xavier Ferreira: Na verdade, eu considero a demanda muito positiva. Ela mostrou qual é a real estrutura que o País tem de ter na área de telefonia. Hoje, a lista de espera por um telefone celular é de 14 milhões de pessoas.





