A tática da transferência
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de dezembro de 1997
Farage Kouri 
Não tem outra saída: ou o Congresso Nacional debate a aprova com urgência os projetos das reformas estruturais, ou o País estará no caminho da ribanceira, do caos econômico e social, sinalizado pelo enlouquecimento dos capitais especulativos que circulam na bolsa de valores. De uma vez por todas, a sociedade brasileira deve compreender que enquanto não se eliminarem os enormes ralos da despesa pública, não haverá condições de se ter um clima e um ambiente adequado para o desenvolvimento.
Embora o quadro atual seja de pessimismo em função do ajuste fiscal que o governo acaba de estabelecer, não é momento para uma atitude radical de recusa à diretriz do plano de estabilização econômica, mas de ampla reflexão para que se analise ponto a ponto as questões que são fundamentais quando ainda há tempo, quando se tem à mão o instrumento político das reformas estruturais. O País pode continuar na cruel dependência exclusiva dos acontecimentos internacionais. A imperiosidade da globalização é considerável, mas as economias emergentes devem aceitá-la passo-a-passo, fazendo do gradualismo o contraponto das defesas fragilizadas dos países periféricos.
O Brasil, líder natural do bloco latino-americano, acabou de dar um exemplo de maioridade e maturidade quando apontou o caminho do gradualismo aos demais parceiros regionais em relação à inserção do Mercosul na Alca (Área de Livre Comércio das Américas), proposta pelos Estados Unidos. Em síntese, o que se disse foi o velho adágio: bom senso e caldo de galinha não faz mal a ninguém. O povo entendeu a aplaudiu seus governantes.
Agora, diante da crise proporcionada pelos especuladores, o governo brasileiro age rapidamente, mas não demonstra a mesma clareza, ou a vontade de expor à sociedade para um amplo debate as questões essenciais, entre as quais a imperiosidade das reformas para o equilíbrio das contas públicas. Apenas lança um pacotão argumentando que precisa de 20 bilhões de reais para vedar os grandes ralos. E, ainda muito timidamente, propõe, repita-se, propõe, que se altere o repasse de recursos do erário público para os famigerados fundos de pensões de empresas estatais. Deveria impor ao invés de propor; deveria agigantar-se diante do poderio corporativista dessa elite usurpadora dos recursos da sociedade, que vive de privilégios enquanto o sistema previdenciário normal é o retrato da vergonha nacional. Nos países em que a moralidade impera sobre a cultura de privilégios, os fundos de pensões privados garantem a poupança necessária. Para os investimentos no desenvolvimento, não havendo a necessidade de se apoiar em capitais especulativos, que apenas mercantilizam a moeda como se fosse uma comoditie.
Em nada resulta o governo apenas insinuar que o País precisa em torno das reformas, especialmente quando se está diante de uma proposta de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. O discurso do Real com muralha intransponível está sendo atropelado pela realidade. Então é necessário agir, afrontar e confrontar tudo aquilo que ameaça o Real, por meio de uma atitude firme e coerente, a exemplo do que se fez diante de Bill Clinton em relação ao Mercosul. Como ressaltam alguns analistas, a insegurança do sistema ameaça e eficácia da tática.
Também em nada resolve confiar que ditos especialistas de política econômica, consultores que vendem o peixe do conhecimento das entranhas do poder, usem veículos de mídia para reverbar conceitos de macroeconomia dizendo que está tudo sob controle.
A realidade também atropela esse proposto da equipe econômica do governo, porque lhe falta credibilidade, desde que se assumiram como tais depois de exercerem funções de destaque na vida pública do País.
Em uníssono, dizem coisas que arrepiam, como: está tudo sob controle, mas dependemos dos acontecimentos internacionais. Isto é, no mínimo, uma afronta à inteligência de quem lê, ouve e acompanha os fatos de realidade do País.
A eficácia da tática está na transparência, na informação correta, para que os segmentos da sociedade possam dialogar, analisar e debater as questões que são dos interesses de todos. A política de recusa é a atitude do contra-senso, é a porta aberta para a vulnerabilidade, que agora está bem visível, especialmente no âmbito do Congresso Nacional que desconsiderou a importância e a urgência das reformas estruturais. Infelizmente, esse quadro tende a se agravar em função da proximidade de um novo ano eleitoral, quando os congressistas pisam em ovos de franga pensando apenas em preservar suas bases eleitorais. A aprovação das reformas, que se mostrou difícil em tempos de normalidade, poderá ser agora um desenho de catástrofe. Também neste aspecto, a insegurança do sistema político-eleitoral poderá ameaçar a eficácia da tática. E a tática só produzirá resultados competentes, tanto no ponto de vista institucional como torno na política econômica quanto nos aspecto eleitoral, se estiver respaldada pela transparência, para uma decisão de qualidade em relação aos destinos do País.
- FARAGE KOURI é empresário e presidente da Federação das Associações Comerciais Industriais e Agropecuárias do Paraná (FACIAP).


