A super-estrada da informação - Ichak Adizes
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de outubro de 1997
Ichak Adizes 
É possível que estejamos sobrecarregando o potencial humano com níveis atuais de tecnologia, conforme se vê em nossos relacionamentos.
O que nos aguarda naSuper-Autoestrada da Informação? Os especialistas falam a respeito das possibilidades tecnológicas, mas raramente se referam ao impacto de longo alcance sobre a cultura e os negócios. Tampouco perguntam: Isso melhorará a nossa qualidade de vida?
Uma progressão geométrica dentro da tecnologia da computação está nos sufocando com informações. Metade dos gastos com equipamento para gerência de negócios está sendo empregada em alta tecnologia.
Para muitos, as possibilidades dentro da tecnologia da informática sugerem uma revolução no conhecimento, um salto quântico para a humanidade. Pode-se vislumbrar a conjuminação de um novo ambiente de aprendizado e uma nova sociedade informatizada. No mundo dos negócios diz-se que a corporação virtual é uma onda do futuro contendo uma nova maestria em termos de informação e modos de se gerenciar o pessoal. Porém, será que isso necessariamente significa que haverá mais produtividade ?
Creio que o impacto da super-autoestrada da informação será o de nos fazer sentir menos produtivos e mais destituídos de poder. Perderemos, mais e mais, o domínio de nosso ambiente como cidadãos, trabalhadores, tomadores de decisão e realizadores.
Por quê? A resposta tem que ver a priori, com a sobrecarga da informação. A estrutura dos novos sistemas de informação assegura que há muito mais que poderia - e pode - ser feito que aumenta exponencialmente as expectativas. Hoje temos dificuldades em surfar pelos canais, mesmo dispondo de 80 deles; imaginem 500 canais ou mais. A felicidade, como sabemos, é uma função das expectativas. À medida que estas crescem, um desempenho comensurável em tempo real não é atingido. Além disso, teremos até mesmo menos tempo, porque haverá mais possibilidades de se o utilizar. Uma história publicada pelos jornais conta com uma executiva em férias, recebeu por via fax toda a sua correpondência e tremendas quantidades de papéis de trabalho, por meio de uma míriade de redes de comunicação terrestres e via satélite, enquanto escalava o Monte Everest.
Estamo-nos deparando com uma síndrome da autoestrada ao longo da autoestrada da informação. Suponham que haja um congestionamento no tráfego. Aumentamos o número de faixas de trânsito a fim de reduzí-lo. Agora podemos nos locomover mais rapidamente, porém, isto faz com que mais pessoas se mudem para o subúrbios e logo a autoestrada estará mais congestionada que antes. As oito faixas melhoram o transporte. Elas ajudaram a criar centros desertos e passageiros vindos de longa distância.
Não deveríamos colocar toda a nossa fé na tecnologia como instrumento para solucionar o problemas do futuro.
Similarmente, mais informação e capacidade podem não poupar tempo, mas apenas aumentar nossa carga de trabalho e nos frustar, porque não estaremos utilizando todas as nossas armas, que segundo acreditaríamos, deveríamos ou poderíamos usar. A autoestrada da informação modificará a quantidade de informação, mas não necessariamente a qualidade da comunicação.
O aumento de opções não aumenta a produtividade, felicidade e saúde. Poderia, sim, operar no sentido contrário. Como exemplo, tomemos os Estados Unidos. São uma nação rica, com oportunidades infindáveis de se auto-alimentarem. E o que acontece? Jamais vi uma nação com tantas pessoas obesas como os Estados Unidos. Quanto mais desenvolvido é um país, tanto mais seus cidadão se preocupam com o controle de peso. Ter uma maior gama de escolhas quanto aos alimento não nos torna mais saudáveis. Isso poderia nos matar devido ao abuso.
Para se assegurar, a tecnologia tenta resolver os problemas que ela própria cria com sua descarga maciça de dados e opções tecnológicas: lasers azuis e drives de diskettes moleculares; processamento paralelo para ambiente desktop; e tecnologia de genética informática de Vida Artificial, que faz mutações a fim de solucionar variáveis. Mas onde está a linha em que o controle humano e a interatividade terminam?
Seria um mundo, onde a tecnologia dirige a cultura, como predisse Jacque Ellul há 45 anos em sua Technological Society, o próximo passo? A tecnologia se torna a estratégia, missão, um fim em si mesma. O produto deste mundo dirigido pela informação é, cada vez mais, a criação de um mundo que fica aquém do esperado ou desejado, que é o oposto do novo ambiente de aprendizado frequentemente descrito como sendo a meta ou a super-autoestrada para trabalhadores ou cidadãos. A imagem que se nos é alimentada, de uma fogueira de acampamento de tecnologia, ao redor nos contam histórias uns aos outros e interagimos como humanos, pode ser tanto auspiciosa quanto enganosa. Tenho perdido o senso daquilo que é real, poderíamo-nos tornar, cada vez mais, falsos em nosso comportamento. Dimensões de multi-usuário ja se tornaram uma realidade da computação. Podemos reescrever a música dos grandes mestres; reeditar filmes; reescrever a história e solucionar como pessoas os problemas da humanidade. Howard Rheingold escreve em The virtual Community, que uma realidade virtual permite uma forma de domínio em meio a um mundo de autoridade controlada por professores, chefes, pais e profissionais. Isso, assegura-nos ele não deveria se tornar a realidade real. Mas o que seria uma realidade realnestas circunstâncias? Estaríamo-nos tornando crescentemente confusos entre o que é real e o que é uma simulação da realidade?
Mesmo em níveis de tecnologia de hoje, tendemos a desafinare nos desligar em nosso relacionamentos um com os outros. Tratamo-nos como se o outro fosse um rádio ou um aparelho de Tv. O que a autoestradada informação e a realidade virtual trarão aos nossos costumes e comportamento social? Pessoas solitárias, interagindo via-vídeo e telas de computador, sem uma sensitividade direta e feedback humano? É longa a distância entre o que acaba de ser descrito e o ideal do cidadão educado, que John Dewey descreveu no ínicio deste século - um ser produtivo, decidido, social, que pode pensar e agir criativamente dentro de um centenário democrático.
Não deveríamos colocar toda a nossa fé na tecnologia como instrumento para solucionar os problemas do futuro. A solução reside mais em aprender, primeiramente como ser, comos seres humanos, e como nos relacionamentos em sociedade - na política, nas relações étnicas, como famílias e como seres humanos criativos. Então, estaremos prontos para utilizar a tecnologia, ao invés de permitir que a tecnologia nos utilize.
Muitos antes de Karl Marx analisar os aspectos econômicos e da alienação do capital, ele descreveu a alienação do trabalhador como sendo uma solidão e estranheza intensificadas, onde há um desprovimento de poder e perda do senso de humanidade; um mundo onde as coisas possuem vida própria. Hoje, a super-autoestrada da informação parece estar conjurado a mesma visão fria e irônica.


