Foi a maior crise global desde a Grande Depressão que se seguiu ao "crash" da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929
Foi a maior crise global desde a Grande Depressão que se seguiu ao "crash" da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929 | Foto: Bryan R. Smith/AFP


Flórida e Nova Jersey, EUA - À beira mar no sudoeste da Flórida, Sarasota é considerada o epicentro da crise global que levou, há dez anos, à maior quebra corporativa dos EUA: a falência do banco Lehman Brothers, em Nova York, em 15 de setembro de 2008.

No final de 2007, Sarasota e cidades vizinhas como St. Petersburg e Tampa experimentaram uma queda abrupta nos preços dos imóveis, desencadeando uma onda que se propagaria primeiro pelos EUA e, depois, pelo resto do mundo.

O movimento culminaria no que hoje se convencionou chamar de Grande Recessão, a maior crise global desde a Grande Depressão que se seguiu ao "crash" da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929.

Em 2010 e 2011, com os preços dos imóveis despencando nos EUA, Dave Lantz teve a ideia de reunir grandes somas de familiares e empréstimos para comprar casas nos EUA. Hoje, ele administra 2.000 imóveis, vários deles em Sarasota, onde Lantz caminhava despreocupado há duas semanas em direção ao bar de um pier repleto de iates.

Nesse mesmo bar, Terri O´Sullivan servia jarras de cerveja e representava o "outro lado" dessa história. Durante a chamada "bolha imobiliária" que se formou antes da quebra do Lehman Brothers, os bancos forneciam financiamentos, sem pedir muitas garantias, a quem quisesse comprar uma casa.

Então em Kansas City, no Missouri, Terri foi uma das milhões de pessoas que tomaram esse tipo de empréstimo, chamado "subprime". Na época, os bancos concediam cada vez mais financiamentos, e os preços dos imóveis não paravam de subir. E eles não paravam de subir porque os bancos emprestavam sem parar --inflando a demanda por casas com financiamentos baratos e reduzindo o estoque de moradias.

Depois de conceder os empréstimos, os bancos "empacotavam" as dívidas de seus mutuários em produtos financeiros obscuros e de nomes sofisticados. E os vendiam ao redor do mundo tendo como "garantia" selos de qualidade inócuos de agências que classificação de riscos.

Mas a garantia e a remuneração desses produtos dependia de os mutuários continuarem pagando as prestações e, em grande medida, de os imóveis seguirem em alta.

Muitos compraram três ou quatro imóveis na expectativa de valorização eterna, em muitos casos com planos de revender ou alugar para pagar as prestações.

Quando ficou claro que os preços não subiriam para sempre e os bancos cortaram novos financiamentos, os mutuários começaram a se desfazer de suas casas. Os preços desabaram. E aqueles títulos com nomes sofisticados passaram a perder valor imediatamente.

Terri, por exemplo, perdeu sua casa e colocou lenha na crise depois que seu imóvel, financiado por US$ 375 mil, desvalorizou-se a ponto de ela ser obrigada a vendê-lo por US$"?275 mil. Ela deixou de pagar prestações de US$ 1.800 e de remunerar os títulos que seu empréstimo garantiam.

Recheados com montanhas de papéis lastreados em financiamentos inadimplentes, os balanços dos bancos registraram prejuízos gigantescos. Enquanto alguns quebravam, como o Lehman Brothers, quase todos pararam de emprestar dinheiro a empresas e consumidores, jogando os EUA primeiro, e depois o mundo, na espiral da crise.

Na recessão, o PIB dos EUA encolheria -0,3% em 2008 e -2,8% em 2009, o desemprego iria a 10% com a demissão de 9 milhões de pessoas e mais de 6,3 milhões de famílias, segundo estimativas conservadoras, seriam despejadas.

Na época, Terri perdeu seu imóvel e cerca de US$ 100 mil que tinha dado como entrada e em prestações já quitadas. Casas como a dela foram as que Dave Lantz comprou na baixa. E que hoje, após a recuperação na última década, voltaram a valer mais do que antes do início da crise. Agora há, no entanto, uma diminuição no ritmo de valorização. O fato tem levado à pergunta: os Estados Unidos não estariam formando as condições para uma nova crise?

mockup