A quem interessa a Vale?
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de novembro de 1996
Antoninho Marmo Trevisan 
A Vale do Rio Doce é uma estatal que tem gerado grandes polêmicas. Desde a sua criação em 1942, a Vale vem despertando a atenção de brasileiros e de investidores no mundo todo pelas variadas operações que exerce. Elas estão ligadas ao minério de ferro e de ouro, celulose, florestas, ferrovias, dentre outros, e pela magnitude das suas atividades, seja como principal produtora de ouro da América Latina, seja pela capacidade de fornecer para o Japão, desde 1962, 40% de todo minério de ferro que ele consome. A Vale é uma empresa vencedora que enche de orgulho os brasileiros.
No início da década de 80, o então senador Severo Gomes, de saudosa memória, denunciava uma aparente estratégia que privatizaria a Vale mediante a transformação de debêntures em ações com direito a voto. Já naquela época, portanto, a discussão sobre a privatização da Vale provacava CPIs e levantava questões de segurança nacional, princípios mormente cívicos como é alegado hoje por políticos, generais e sindicalistas que se colocam contra a privatização da companhia.
É natural que o debate se aqueça. Estamos falando de uma empresa de US$ 15 bilhões, de cujo capital votante o governo possui 76%. É uma empresa dos brasileiros, que explora grande parte do chamado chão nacional. Mas o fato é que os brasileiros ganham muito pouco com a Vale e com as estatais em geral. Para ser ter uma idéia desse custo, é só comparar o quanto a União desvia de recursos para essas empresas num período de 6 anos e quanto ela recebeu de volta em forma de dividendos: US$ 25,8 bilhões queimados contra apenas US$ 1,1 bilhão pago como dividendos. Que dizer, os brasileiros aguardarão 140 anos para ter o capital investido de volta. Três ou quatro gerações de cidadãos terão trocado investimentos em educação e saúde por aplicações em empresas estatais. E vejam que o setor privado está disposto a botar capitais no negócio empresarial sem contar com a ajuda oficial.
Dizer que a Vale é uma empresa lucrativa é falácia. O importante é saber quanto ela lucra. Antes de ser privatizada, a Usiminas também era lucrativa. Agora, nas mãos privadas, gera de 4 a 5 vezes mais lucros.
Nos seus 54 anos de vida, a Vale possibilitou um retorno médio ao seu principal acionista de apenas 0,09% em média ao ano, enquanto a União pagava aos seus credores juros de até 30% ao ano. Vejam quanto se ganharia substituindo apenas parte das dívidas por receita de privatizações. E olhem que estamos falando da mais rentável das estatais brasileiras!
Mas que a privatização da Vale vai gerar muita polêmica, ah! isso vai mesmo. Afinal, esta companhia atua em 9 Estados brasileiros, dentre os quais, o Maranhão e Minas Gerais, dos ex-presidentes Sarney e Itamar, razão por que estão defendendo princípios e razões de segurança nacional e propõem movimentos cívicos em prol da não privatização da Vale. Só no Maranhão, a empresa responde por 50% dos impostos arrecadados. Tudo isso sem falar nas indicações políticas que a Vale possibilita. Estima-se que de 800 a 1.000 cargos da companhia obedecem a critérios políticos. Muito justo que certos políticos defendam seus interesses. Resta saber quem defenderá os nossos direitos.
- Antoninho Marmo Trevisan, presidente da Trevisan Auditores e Consultores.


