O fim já anunciado das atuais reservas de petróleo vai provocar mudanças na geografia internacional do combustível. E o futuro parece já estar sentenciado: o Brasil será a próxima potência mundial do segmento. Esta afirmação, em tom bastante otimista, é do físico nuclear Roberto Yoshiuti Hukai, professor doutor de Energia da Universidade de São Paulo, consultor do Banco Mundial e um dos responsáveis pelo projeto do gasoduto Bolívia-Brasil. Ele reforça a teoria de que o Brasil é o único País do mundo com condições de suprir a demanda mundial por energia limpa.
''O Brasil está entre os sete maiores do mundo (os outros são Rússia, China, Canadá, Estados Unidos, Índia e Austrália) e é o único que tem terra, sol e água. O grande problema para a produção de biocombustíveis é água'', explica Hukai. Ele acrescenta que os outros seis países têm algum fator limitante para esta produção. Hukai morou e estudou em Londrina dos 11 aos 19 anos e só deixou a cidade para cursar Física Nuclear na Universidade de São Paulo. Ele explica que a cotação do petróleo - que tem variado entre US$ 90 e US$ 100 o barril, mas atingiu picos de quase US$ 150 - vai permanecer alta. A crise financeira mundial, na sua avaliação, causará reflexos em todas as economias mundiais, o que deve levar à redução do preço devido à queda na demanda.
''Mas quando a crise passar o consumo de petróleo vai continuar crescendo'', estima o professor. Isso deve ocorrer porque o consumo chinês - a potência econômica do momento - de óleo fóssil cresceu seis vezes entre 1996 e 2006. Além disso, a frota mundial está em expansão com a estimativa de até 2040 aumentar mais de 300% na China e mais de 40% nos Estados Unidos, por exemplo. Considerando que é preciso três litros de petróleo para produzir um de gasolina, a estimativa é que o consumo do Brasil, China, Índia e Estados Unidos seja suficiente para, também em 2040, acabar com as reservas da Venezuela em 3,5 anos e da Arábia Saudita em 12 anos.
Além disso, a Agência Nacional de Energia indica que 62% dos poços atualmente em exploração irão secar nos próximos 20 anos. A atual produção comercial é de 86 milhões de barris por dia, então, neste prazo, será preciso a reposição de 54 milhões de barris (considerando o fim dos 62% dos poços) mais 15 milhões de barris no mundo (estimando o aumento do consumo). ''O consumo vai aumentar em quase 70 milhões de barris por dia. Esta quantidade corresponde a sete vezes a produção atual da Arábia Saudita e será que em 20 anos o mundo vai conseguir aumentar em sete vezes a produção atual da Arábia Saudita de novo petróleo, com novos poços?'', questiona Hukai.
Na sua avaliação, este aumento de demanda fará crescer o consumo de etanol brasileiro que hoje custa entre US$ 50 e US$ 60 o barril e, portanto, bem mais competitivo do que o petróleo. O álcool nacional também tem mais vantagens do que o americano, produzido a partir do milho com alto custo e subsidiado. ''O problema do etanol de milho é a água, que precisa de 4,5 mil litros de água para produzir 1 litro de etanol de milho. Para a produção de etanol de cana-de-açúcar são necessários 1,5 mil litros de água; e os Estados Unidos não têm água'', comenta. Por isso, a única saída apontada por ele é que os americanos passem a importar 90 bilhões de litros do combustível do Brasil, caso seja feita adição de 20% de álcool à gasolina.
Atualmente, o Brasil exporta apenas cerca de 3,5 bilhões de litros, enquanto a maior produção é destinada ao consumo interno. ''O Pró-álcool foi desenvolvido para o mercado interno e, por isso, sua estrutura foi montada em São Paulo e vizinhanças. Só que em dez anos vai começar uma demanda extremamente grande no exterior'', diz o professor. Este fator, na sua avaliação, pode levar a produção para as regiões Norte e Nordeste do País, que também conta com portos para exportação. ''O Canal do Panamá está sendo alargado e o transporte vai ficar mais perto da China e da Coréia. Será uma revolução logística interoceânica'', avalia.

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