Curitiba - Na prática, quase sempre acaba saindo R$ 1. O comerciante admite e o consumidor não cobra. Então, quando se paga com dinheiro uma compra isolada, o produto etiquetado a R$ 0,99 custa mesmo R$ 0,01 a mais. O preço terminado em 0,99 costuma atrair mais clientes do que qualquer outro número. Ainda que ninguém lembre de cobrar o troco no caixa.
''O produto não está sozinho na gôndola. Então o preço, que deveria ser um elemento racional na compra, vira psicológico. Se ele é quebrado, como no R$ 0,99, quebra a lógica do consumidor e a percepção daquele valor passa a ser mais positiva. Estudos comprovam isso'', explica o especialista em comportamento do consumidor e professor da especialização em Marketing da Universidade Federal do Paraná, Paulo Prado.
Como a maior parte das compras são múltiplas, os centavos de cada produto são somados e diluídos. Mas quando se trata de um produto único anunciado a preços terminados em 99 centavos, a maior parte dos consumidores parece não se importar que o vendedor ''fique devendo'' o troco. A reportagem pesquisou diversos tipos de comércios de Curitiba - de posto de gasolina, banca de jornal, loja de departamento ou lanchonete - e a constatação dos responsáveis pelo caixa é geral: é raro cliente que cobra as moedas de menor valor do troco.
Segundo a Associação Comercial do Paraná (ACP) a falta de troco não é uma reclamação comum dos comerciantes. O desuso das moedas de um centavo levou o Banco Central a interromper sua produção. Mas isso não significa que a moeda deixou de ter valor. A instituição entende que a quantidade disponível atualmente no mercado é suficiente para as transações financeiras. O principal órgão de defesa do consumidor, o Procon-PR, informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não considera problema a falta de troco ou a divulgação de preços ''quebrados'' sem sua aplicação de fato.
Ninguém nega que é prática no comércio. Mas nem todos aceitam. Não é difícil encontrar consumidores que garantem fazer valer seus direitos na hora de pagar por um produto com valor quebrado. É o caso da analista de planejamento Lívia Grinberg, 20 anos. Ela conta que faz questão de pedir o troco exato, não importa a cara feia que recebe do vendedor. ''A maioria reclama, fala que não tem moedas. Então, porque já não colocam o valor arredondado, seria mais honesto. Ou então devolvam cinco centavos. Bala eu também não aceito''.
Sentada em um café com amigos portugueses, eles comentam como funciona essa questão no país europeu. ''Lá os comerciantes costumam perguntar se o cliente aceita arredondar o valor para cima e doam para uma instituição de caridade. Se a pessoa não aceita, eles devolvem o troco exato'', conta Pedro Pinheiro, engenheiro de informática que divide os dias entre o Brasil e Portugal.
Alguns estabelecimentos trabalham com uma margem no caixa para que o funcionário possa ajustar para cima ou baixo os valores, conforme demanda do cliente. A caixa de posto de gasolina Daiane Wonsovitz explica que tem um valor de R$ 10 por dia, chamado ''limite do furo'', para não ''dever'' para o cliente. ''Mas é raro que a pessoa peça. Estamos com uma promoção de refrigerante anunciado a R$ 2,99, mas na prática fica R$ 3. A cada 15 clientes, no máximo um diz alguma coisa sobre o troco''.
Na banca de revista, a história se repete. Apesar de muitas revistas terem preço marcado a R$ 9,99, Angela Heidorn, filha do proprietário, conta que já são consideradas como R$ 10. Mas, ao contrário de grande parte dos comércios, a banquinha mostra que tem uma grande quantidade de moedas de um centavo à disposição. O motivo delas não serem entregues aos compradores é simples. ''Ninguém pede'', argumenta Angela.
Tanto na posição de vendedor como de consumidor, Marcelo Crovador, 35 anos, diz que exige honestidade na hora do troco. ''Eu quero o valor exato e não aceito bala. Pode até fazer cara feia, mas se não tem, que dê o valor a mais''. Já na sua loja de eletrônicos garante que não coloca preço quebrado nos produtos.
Na opinião do professor Prado, sob o ponto do mercado, o troco deveria estar sempre disponível. O consumidor leva vantagem no preço quebrado quando ele vem somado a outros produtos ou quando o pagamento é feito com cartão ou cheque.

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