A organização e o cidadão do mundo
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de outubro de 1997
Sérgio Henrique Schmitt 
Mudar ou mudar. Esta é a imperativa e única alternativa para garantir a presença das organizações - empresas e instituições - concebidas para atuar na realidade brasileira em dado momento histórico e que, necessariamente, querem se manter no futuro, porque:
... Continua o fluxo de gente saindo do campo em direção às cidades. E as cidades carecem de equipamentos estruturais e sociais para abrigar o contingente migratório, inclusive desorganizadas na promoção básica da sua própria população.
... A sociedade não aguenta e não quer mais pagar o ônus da atual máquina estatal. O estado moderno - legislativo, executivo e judiciário - será, sem dúvida, o estado modesto, que deve cuidar da educação, da saúde, da segurança, da habitação e da alimentação do povo, isto é, organizar a superação dos gravíssimos problemas sociais da população. A reforma administrativa para reduzir a participação do governo federal, estadual e municipal na vida econômica do cidadão está aí e será feita independente dos resultados das próximas eleições.
... Qualquer lugar do mundo produz qualquer coisa, seja ela boa ou ruim. E com pouca gente empregada. O atrativo para produção, na globalização da economia, é - foi e será - a taxa de retorno do capital investido. Os empreendimentos capitalistas vigentes querem vantagens comparativas nas oportunidades de negócios e nas relações de emprego. Quem se sujeita a manter um grande exército de reserva de mão-de-obra (desempregados) ou relaxa normas constitucionais (pagar parte da conta, aceitar degradação ambiental) participa, embora entre na contramão da história e quem sabe responderá pelo mico. Já, o resgate das práticas de socialização do capital e a produção com sustentabilidade são a luz no fim do túnel.
...O cliente, categoria humana chamada de consumidor graças ao seu poder aquisitivo, está vivendo um novo padrão de qualidade de vida, com mais tempo de lazer e de consumo. Nos países ditos desenvolvidos, o produto limpo ou orgânico, ganha destaque. No Brasil, esta moda ainda engatinha mas pegou corpo o valor real da moeda, e a população já grita quando leva gato por lebre...
Assim, para sair da turbulência e incertezas atuais, superar a mera sobrevivência organizacional e mudar, o caminho sem dúvida é o planejamento estratégico, tendo como tripé o domínio tecnológico, a leitura da realidade e a participação política.
Um planejamento que deixe claro, realmente, qual é o negócio da organização, quem são os verdadeiros clientes, onde estão os concorrentes e a própria reavaliação da produção, primando pela qualidade, quantidade e preço. Que permita projetar cenários e identifique os atores do processo. Que tenha flexibilidade de adaptação para rápidas e constantes mudanças. Que detenha informações que, processadas, se tornem indicadoras de controle e indicadoras de resultados.
O domínio tecnológico é, em outras palavras, a educação do negócio. Educar cada integrante da organização tornando-o um especialista do conhecimento aplicado e dentre eles promover a emergência de novos profissionais teóricos e de novos conceitos para garantia do processo de continuidade da produção e da própria organização. Um compromisso sério e duradouro com o desenvolvimento humano, de forma integral e participativa para permitir mudar e superar a corrupção, o jeitinho, a indolência, a indisciplina e a ineficiência. As que fizerem investimentos nesta área terão produtividade, seletividade, ambiente, espírito de corpo, inserção de mercado, lucratividade e continuidade. Com pessoal capacitado e especializado, as técnicas de produção serão democraticamente entendidas, melhoradas, padronizadas e praticadas.
A leitura da realidade é o segundo pilar determinante da organização receptiva às mudanças, para reconhecer que sua existência não é mágica e sim fruto de convergência de interesses do próprio contexto social, geográfico e econômico em que está inserida. Ao ler o ambiente e identificar os indicadores, terá também fontes de informações para compor o próprio mapa de abrangência e de profundidade organizacional.
A prática política, como terceiro pilar organizacional, visa assumir a premissa da pessoa humana, o ser político. A organização é formada de gente e de interesses que materializam relacionamentos internos e relacionamentos externos. Uma política é definida como instrumento técnico ou método, ambos disponíveis na realização organizacional através das atitudes e dos comportamentos das pessoas.
E, por fim, o profissional - empresário e empregado - que encare bem as mudanças, tenha visão de futuro e adote gestão estratégica para na sua ação diária incorporar, de forma harmônica e competente, o tripé como base de sua verdadeira postura na sociedade: a de cidadão. Daqui e do mundo.
SÉRGIO HENRIQUE SCHMITT é especialista de Comunicação e Marketing da Emater-Paraná.


