A não-crise - André Stumpf
A não-crise
André Stumpf
O Fundo Monetário Internacional foi criado em 1944 durante a conferência de Bretton Woods, pequena cidade na Nova Inglaterra, Estados Unidos. Um brasileiro participou desse histórico momento, o professor Roberto de Oliveira Campos. A idéia inicial era unir os países vencedores na Segunda Guerra Mundial e construir a nova ordem econômica. Sugerir um modelo de economias complementares, evitar países fechados a importações e estimular o livre-comércio. Além disso, foram criadas normas para simplificar o câmbio de moedas.
Apesar de participar da instituição desde o momento inicial, as relações do Brasil com o FMI têm sido caracterizadas por um confronto permanente. Os sábios da veneranda instituição continuam perseguindo seus antigos e conservadores objetivos. Os países devem buscar o desenvolvimento auto-sustentado, não podem gastar mais do que arrecadam e precisam ter políticas permanentes contra inflação.
Não há, nesse receituário, nenhuma preocupação social. A tese é a de quem souber poupar e investir corretamente seus recursos vai, naturalmente, encontrar a brecha para colocar dinheiro em áreas carentes. Os técnicos do FMI foram, por exemplo, rigorosamente contra a construção de Brasília. Entendiam que era mau investimento. Modernamente querem taxar aposentados e privatizar o sistema de seguridade social.
O atual governo brasileiro, diga-se de passagem, adotou todos, absolutamente todos os quesitos dessa receita chamada de neoliberal. Nos últimos cinco anos o debate econômico ganhou, dentro do Brasil, grande dimensão, exatamente porque os economistas viraram as costas para a pobreza e a necessidade de investir em saúde, educação e na infra-estrutura. O dinheiro obtido nas privatizações foi canalizado para o pagamento das dívidas externa e interna.
As pessoas minimamente informadas sabem que o sistema é excludente. Os políticos não gostam de falar sobre isso. Pega mal. Mas é a verdade. Existem, por vezes, ações isoladas, nas vésperas das eleições, com o objetivo de lubrificar o discurso dos governistas no palanque. Afinal de contas, o atual governo federal não tem obras a mostrar, nem vitórias a proclamar. É difícil fazer campanha diante dessa pobreza de realizações.
Brigar com o representante do Fundo Monetário Internacional de passagem pelo Brasil é ótimo recurso político-eleitoral. Ele disse o que todo mundo diria. O Brasil investe mal nos setores menos favorecidos. É cristalina verdade. É de uma luminosidade capaz até de atingir os olhos menos sensíveis. No entanto, a verdade dita pelo gringo deu o pretexto para o ressurgimento da onda nacionalista.
O representante do FMI voltou atrás, disse-que-não-disse, que foi mal interpretado, coisa e tal. A crise acabou com a rapidez que começou. Serviu apenas para demonstrar que os brasileiros gostam de seguir as determinações vindas de Washington. O governo Fernando Henrique é um exemplo eloquente desse proceder. No entanto, os políticos entram em estado de rebelião quando alguém revela o óbvio: as relações íntimas entre aquela instituição e Brasília. Ocorre, então, a não-crise, que tem por objetivo render bons discursos no palanque e alguns votos a mais.





