A alteração da política cambial, se der resultados efetivos, pode favorecer a agropecuária, pela valorização de seus preços. A questão que fica no ar é saber se a desvalorização do real em 8,26% é suficiente para eliminar a defasagem cambial, ou se ainda sobrou um resíduo e qual o seu valor. Creio que ainda persiste uma defasagem, que o Governo Federal não quis ou não pôde extinguir para não comprometer em demasia as empresas financiadas em dólar e que seriam sobrecarregadas.
Em todo o caso, se a manobra de desvalorização der certo - e tomara que dê - os produtores rurais saem ganhando, de duas formas: Os que produzem produtos de exportação, como soja, café, laranja, cacau, têm seus preços valorizados em montante semelhante ao valor da desvalorização cambial. Assim, por exemplo, um produtor de soja que recebia 10 dólares por saca, quando convertia o valor para reais, recebia R$ 12,20 por saca. Com o dólar valendo R$ 1,32, pelos mesmos 10 dólares por saca o produtor passa a receber R$ 13,20.
No caso dos produtos destinados ao mercado interno - milho, trigo, algodão, cevada - e que têm os preços balizados pelas cotações internacionais, uma vez que podem ser substituídos por produtos importados, também podem ser valorizados. Vale raciocínio semelhante ao feito para a soja, embora não seja automático, por entrarem outras variáveis na equação. A tendência, contudo, é a conversão dos preços internacionais pelo novo câmbio.
Naturalmente os custos de alguns insumos com componentes importados vão encarecer, mas na ponderação total dos custos esse incremento provavelmente não será igual ao valor do ajuste cambial. Isto ocorreria se todos os insumos agropecuários fossem de origem externa, o que não é o caso.
A Federação da Agricultura do Paraná (Faep) tem denunciado constantemente, desde a crise da comercialização de 1995, que a defasagem cambial tem sido a ‘‘mãe’’ de nossas mazelas, por ser responsável pelo aviltamento dos preços dos produtos agrícolas e reduzido a nossa competitividade tanto no mercado externo como em nosso próprio mercado, agredido fortemente por produtos importados, inclusive com subsídios na origem e financiamentos a taxas reduzidas.
A solução desse problema pode ser a base para o início da recuperação da Agropecuária, naturalmente se o Governo adotar outras providências que restabeleçam plenamente a competitividade de nossos produtos, tais como retirar o peso tributário, reduzir o ‘‘custo Brasil’’, resolver o endividamento, restabelecer os níveis de financiamento, utilizar as medidas de combate às importações subsidiadas e dar apoio concreto ao desenvolvimento do setor.
As medidas do Governo, mesmo que adotadas no desespero, podem representar um bom começo se, volto a repetir, tudo der certo.

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