A lógica do mercado financeiro
Convidado por um grande banco estrangeiro para assistir a uma palestra sobre cenários econômicos e suas implicações no mercado financeiro, ouvi com atenção a exposição, que foi clara, sistemática e, acima e, sobretudo, lógica (se o cenário A se confirmar, necessariamente ocorrerá a situação B).
Assim, se afirmou que a crise do petróleo já ficou para trás e que os focos agora seriam as economias americana e argentina. Estes dois focos precisavam ter um comportamento X para o mercado ter um resultado Y; se o comportamento fosse diverso de X o resultado seria necessariamente menos Y. As expressões que mais foram usadas foram: a) mercado (o mercado pensa isto, o mercado reage assim ou assado); b) analistas (os analistas entendem isso ou aquilo); e c) longo prazo (qualquer aplicação tem de ser a longo prazo).
Confesso que saí da palestra perturbado. Ninguém sabe definir o tal mercado; não se conhecem quem são os analistas; o conceito de longo prazo não é claro. Então, após refletir sobre tudo que ouvi, acho que daria para traçar um paralelo entre o atual momento em que se vive relativamente à proteção (saúde) do nosso dinheiro, que é feito pelas instituições financeiras (que fazem parte do mercado) e pelos seus analistas, com a proteção que fazemos de nossa saúde, feita pelo velho e bom médico da família. O que dizem um e outro?
As instituições financeiras dizem que devemos pensar no longo prazo, que sempre ganharemos dinheiro. O velho médico diz que devemos ter visão de longo prazo, não nos estressando, fazendo caminhadas diárias, regrar-se na alimentação, etc. Poderíamos, nos dois casos, nos julgar protegidos? Acho que não! Tanto nosso consultor financeiro (o médico de nossas finanças) quanto o nosso consultor de saúde, ao pregarem a filosofia de longo prazo, praticamente se eximem de compromissos de curto prazo conosco. Não podemos cobrar nada pelo sucedido ontem, hoje e amanhã. Só se comprometem nas coisas que estão muito além de onde os olhos podem ver e acrescentam: desde que o cenário seja este. Ora, perdemos dinheiro e a sa© úde no curto prazo! É hoje! É agora! Como fazer para reverter isto?
A solução é difícil. O que parece é que as análises macroeconômicas que se têm feito são as mesmas usadas há décadas. Usam a mesma tática para situações e inimigos diferentes. Basta pensar na própria massa de recursos disponíveis hoje no mundo para aplicações especulativas. Ela é infinitamente mais volumosa do que há vinte anos. Neste mesmo tempo, houve o salto tecnológico das transações. No passado, uma operação financeira em países diferentes demorava até um mês de prazo para ser processada e homologada. Hoje, a eletrônica faz ao toque de um botão. Soma-se a isto, ainda, o fato de que, como o mundo está mais aberto, o capital migra de um lado para o outro muito mais fácil. Destes pontos, pois, releva-se a massa inacreditável de alguns trilhões de dólares que gira diariamente o mundo procurando oportunidades. E as verdadeiras oportunidades são criadas em momentos de dificuldade. O que parece, pois, é que este mercado, que domina a massa imensa de recurso, não deseja um cenário tranquilo. Cenário tranquilo é ganho previsível, porém, pequeno. O mercado precisa ficar agitado (volátil dizem eles!) para poder nascer oportunidades.
Assim, o mercado cria fatos, interpreta catastroficamente outros, distorce a maioria deles, dá relevância absurda a fatos cotidianos (dependendo do momento e da ausência de outros fatos), ignora solenemente fatos verdadeiramente importantes, é atropelado em muitos momentos, por fatos realmente avassaladores, mas que não eram cogitados, diante de juízo primário feito da conjuntura.
E a consequência disto? O que se tem como conclusão é que o mercado tem uma única lógica: a inexistência de qualquer lógica e, na base deste verdadeiro tumulto diário, está a necessidade de se remunerar mais e mais um capital estritamente especulativo, que não tem cara, não tem pátria, não tem compromisso com ninguém e só ganham os que manipulam os fatos e, como o mercado financeiro não deixa de ser um jogo, se existe alguém ganhando é porque tem alguém (via de regra muitos! desorganizados e vítimas inocentes) perdendo.
JULIO ASSIS GEHLEN é advogado em Curitiba ([email protected]).





