A lógica do emprego- Antoninho Marmo Trevisan
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segunda-feira, 26 de janeiro de 1998
Antoninho Marmo Trevisan 
Analise o discurso do presidente da empresa que anuncia um programa de demissões de um terço dos seus empregados. Ele comunica para os acionistas no exterior a notável façanha, justificando que gastará 48 milhões de reais com as demissões, mas passará a ter uma economia de 46 milhões de reais por ano. Os acionistas, residentes nos Estados Unidos, aplaudem, o presidente continua no cargo da empresa no Brasil e 3,2 mil trabalhadores brasileiros serão postos nas ruas. Como esses postos de trabalho estarão sendo eliminados, nunca mais serão repostos.
No exterior, para os investidores isto é uma maravilha. Mais dividendos nos seus bolsos. Já, aqui, mais gente na rua. É assim que funciona o esquema dos capitais globalizados. O curioso disso tudo é que a empresa que está comunicando o seu programa de redução de pessoal é a maior fabricante de eletrodomésticos do Brasil, a Multibrás, que vende os produtos Brastemp. O presidente da empresa explica que tudo faz parte de um objetivo maior. De fazer mais, com menos gente. Se Garrincha fosse vivo ele iria perguntar se a Brastemp já combinou com os adversários. É que, quem compra os produtos que a empresa vende, fogões, geladeiras, máquinas de lavar roupa, são esses que perderão o emprego.
Bem, então a Brastemp não seria exatamente uma Brastemp no tocante ao interesse social coletivo e sua atitude estaria destruindo uma das regras fundamentais da economia, em que poder aquisitivo determina demanda que, por sua vez, resulta em crescimento e faz a roda girar.
Talvez a Brastemp não tenha tido outra saída, diante da lei de mercado que prevalece numa economia aberta. Ou melhorava a sua produtividade e tornava mais competitiva ou ficaria fora do mercado, amargaria prejuízos e fecharia suas portas e mais gente perderia seus empregos.
Estamos, então, vivendo o caos econômico e social? Não necessariamente. Tome os últimos dados do IBGE e perceba que, entre 1990 e 1995, o número de pessoas ocupadas na indústria brasileira foi reduzido em 450 mil. Já, para o conjunto da economia, houve um aumento de 7,5 milhões de empregos. Não é o ideal, porque a força de trabalho global aumentou em 9,7 milhões de pessoas. Disso resultou um desemprego líquido de 2,2 milhões de pessoas.
O que deve ficar claro é que enquanto a indústria de transformação desemprega, outros setores, tipicamente de serviços, emprega, e o volume de consumidores se mantém mais ou menos estável comprando fogões, geladeiras, etc. É bem provável que boa parte dos futuros demitidos da Brastemp possam encontrar ocupação no setor de saúde, entretenimento, telecomunicações, consultorias e tantos outros serviços que são criados a cada dia.
Só não se pode esquecer que na hora de brigar por novo emprego, um novo perfil profissional estará sendo exigido do candidato. O melhor que ele deverá fazer é procurar uma boa escola para se reciclar. Lembrando que, infelizmente, o impacto favorável da melhoria geral na produtividade industrial brasileira não tem resultado na expansão da produção, a ponto de neutralizar as perdas de emprego.
ANTONINHO MARMO TREVISAN, presidente da Trevisan Auditores e Consultores.


