Nosso País tem uma história interessante sobre o desenvolvimento tecnológico, particularmente, na área de informática. Iniciou-se com a CAPRE, uma entidade que estabelecia as diretrizes e regulava a compra de equipamentos. Depois, em plena ditadura, veio a SEI – Secretaria Especial de Informática que definia quem podia comprar, importar e fabricar equipamentos nessa área. A lei de reserva de mercado para informática foi aprovada quase por unanimidade pela Câmara e pelo Congresso. Durante a vigência da Lei houve muita controvérsia, muita ‘‘chiadeira’’, mas a idéia, como toda teoria, era perfeita: fazendo uma reserva de mercado, nossa tecnologia e nossas empresas cresceriam, ficariam fortes para poder abrir as portas, para concorrer com as grandes empresas mundiais.
Bem, a reserva terminou, as empresas brasileiras não se prepararam para a dinâmica enlouquecedora dos lançamentos de produtos em intervalos cada vez menores e os produtos não eram de última geração. Houve, na verdade, uma repentina abertura: da noite para o dia, podia-se importar tudo de todas as cores e matizes. Resultado: grande quebradeira de companhias que não podiam concorrer num mercado extremamente competitivo, com produtos cada vez mais sofisticados e baratos. Acabou a indústria de informática nacional.
Salvo honrosas exceções, não sobrou praticamente nenhuma empresa genuinamente nacional. Mudou-se também a definição do que é uma empresa nacional. Passou-se, como de costume em nosso País, de um extremo para o outro: antes não se podia nada e agora, podia tudo.
Veio a nova Lei de Informática, de nº 8248 de 1991, vigente até o ano passado, quando passou a ser mantida por meio de Medidas Provisórias. Essa Lei procurou corrigir os erros de sua antecessora, no sentido de incentivar a criação de uma sinergia entre as universidades e centros de pesquisa para que cada um cumprisse seu papel. O conhecimento e a tecnologia emergente das universidades deveria fluir para as empresas, para que estas transformassem esses conhecimentos em produtos e serviços, que por sua vez, seriam vendidos para a sociedade e fecharia o ciclo absolutamente natural em qualquer país desenvolvido.
No Brasil, no entanto, essa realidade era bem outra: setores das universidades consideraram que realizar trabalhos para empresas seria comprometer os resultados das pesquisas e alguns setores empresariais acreditavam que a universidade é muito teórica, incapaz de seguir o ritmo e as necessidades das empresas.
Segundo relatório do Ministério da Ciência e Tecnologia, o setor de Tecnologias da Informação é um dos segmentos industriais que mais investe em pesquisa e desenvolvimento: 5% de seu faturamento. Hoje, as principais universidades e centros de pesquisa do País são parceiras das empresas de informática no desenvolvimento tecnológico. Observa-se uma competição salutar onde as instituições buscam recursos das empresas para desenvolver projetos mais condizentes com as necessidades do mercado.
A partir da aplicação dos instrumentos previstos na Lei 8248/91, os investimentos totais das empresas em implantação, modernização e ampliação industrial passaram de R$151 milhões em 1993 para R$647 milhões em 1998. Somente em 1997, foram investidos pelas empresas já instaladas cerca de R$1,3 bilhão em treinamento, modernização, ampliação e P&D, em o ano de 1998, o aporte de novos investimentos ficaram em torno de R$ 1,5 bilhão.
Portanto, trazer as universidades mais próximas do setor produtivo é um benefício, que por si só, já justifica a aplicação da Lei. Nesse momento, estamos discutindo a continuidade ou não dessa Lei e, independente de interesses regionais, para nós, pesquisadores, essa continuidade é muito necessária, não somente pela destinação de altos recursos à pesquisa, mas porque essa nova forma de trabalho, unindo a universidade e o setor produtivo, com certeza, trará dividendos ainda mais lucrativos ao Brasil.
- O GTI – Grupo de Pesquisas em Gestão da Tecnologia da Informação do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – é formado pelos professores doutores e especialistas em Tecnologia da Informação: Marcelo Schneck de Paula Pessôa, Tamio Shimizu, Mauro de Mesquita Spinola e Fernando José Barbin Laurindo.

mockup