A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que funciona como um laboratório de ideias de vanguarda para o mundo desenvolvido, define cidade inteligente como iniciativas ou abordagens que efetivamente alavanquem a digitalização para melhorar o bem-estar do cidadão. A estratégia é fornecer serviços mais eficientes, sustentáveis e inclusivos, além de ambientes que são parte de um processo colaborativo que envolve várias partes interessadas.

Já a ONU considera que a cidade inteligente pode ser identificada por um tripé formado pela prioridade ao ser humano, pelos traços evidentes de sustentabilidade e pela infraestrutura conectada com dados abertos.

Na visão das Nações Unidas, a tecnologia não é o fim, mas o meio para promover inclusão social, reduzir desigualdades, combater divisões espaciais e melhorar a vida das populações vulneráveis, criando comunidades resilientes para as mudanças climáticas.

Os documentos do Centro das Nações Unidas para o Desenvolvimento Regional (UNCRD, na sigla em inglês) - divisão criada em 1971 com apoio do governo do Japão - ressaltam que a Internet das Coisas (IoT) e a Inteligência Artificial (IA) são novas oportunidades para os gestores locais aprimorarem os serviços urbanos e a eficiência administrativa.

Para a Harvard Kennedy School, uma das mais respeitadas escolas de administração pública do mundo, uma cidade se torna verdadeiramente inteligente quando usa a informação e a tecnologia em sua infraestrutura física e de gestão para tomar as melhores decisões consumindo menos recursos.

O fio condutor das pesquisas em Harvard é um olhar das cidades como um organismo vivo que tem conexões entre as partes - saúde, transporte e segurança - a partir de trocas ágeis de dados para resolverem problemas complexos.

Nesta premissa, gastar com programas caros que podem até agradar os moradores na fase inicial, mas que acabam não gerando impactos reais a médio prazo são potenciais armadilhas, com riscos de retrocesso por inibir novos investimentos diante de contribuintes insatisfeitos.

As pesquisas em Harvard recomendam análise preditiva, dados abertos e engajamento cívico para fazer a prevenção de crises urbanas, com mais gastos com ações proativas e menos gastos com ações reativas.

Este debate, tão necessário quanto fascinante, está na ordem do dia em diferentes partes do mundo e será aprofundado no 26º EncontrosFolha - Conteúdo com Relevância, o evento que desde 2014 fomenta a discussão de temas contemporâneos na sociedade paranaense.

Denominada “Cidades Inteligentes como Ecossistemas Vivos - Mobilidade Urbana, Conectividade e Segurança”, a nova edição será realizada a partir das 18 horas da próxima quarta-feira (8), no Centro de Eventos do Aurora Shopping (Avenida Ayrton Senna da Silva, 400), na Gleba Palhano. As inscrições podem ser feitas na plataforma Sympla.

O time de painelistas será composto pela especialista em mobilidade urbana, Geórgia Briano, pelo prefeito de Londrina, Tiago Amaral, e por Luiz Gustavo Comeli, coordenador executivo do eixo de govtech desenhado pela gestão estadual. A mediação será feita pelo consultor e professor do câmpus Londrina da PUC Paraná, Cristiano Russo.

“Será sempre uma satisfação observar que a Folha está contribuindo para termos uma sociedade cada vez mais preocupada em discutir seus desafios e suas soluções. As curiosidades sobre os temas escolhidos para esta edição devem tornar a experiência marcante tanto para os debatedores quanto para o público do evento. Não é mais possível fazer planejamento em qualquer área sem entender com mais profundidade fenômenos como a conectividade, a inteligência artificial, as novas formas de mobilidade e os novos conceitos de segurança. O objetivo é plantar sementes de reflexão que geram novas atitudes e melhores resultados nos governos e na iniciativa privada”, afirma Nicolás Mejía, CEO do Grupo Folha de Londrina.

Para que o debate consiga abordar o maior número possível de aspectos que fazem das cidades um organismo vivo em busca de inteligência para crescer e se desenvolver, o mediador Cristiano Russo promete empenho e adianta alguns questionamentos que devem vir à tona no auditório do Aurora Shopping. “Como criar um sistema de mobilidade que atenda a todos com eficiência, com um trânsito fluente? Como trazer a tecnologia para serviços de saúde, de educação e de atendimento ao cidadão? Como criar mais áreas verdes para melhorar o escoamento da água da chuva e reduzir os bolsões de calor? Pretendemos explorar esses assuntos e muitos outros neste debate que tem tudo para ser altamente qualificado”, explica.

Prefeito diz que Londrina ON é ‘coração’ de uma estratégia

“Londrina vem se preparando, passo a passo, para se consolidar como uma cidade cada vez mais inteligente. Reconhecimentos como o Selo Ouro do Connected Smart Cities reforçam essa trajetória”, afirma o prefeito Tiago Amaral, que já exerceu a advocacia especializada em Gestão Pública e que tem no currículo o cargo de controlador-geral do Paranacidade, além de ter sido relator do Orçamento estadual por quatro anos e presidido a Comissão de Constituição e Justiça nos tempos que ocupava a cadeira de deputado na Assembleia Legislativa. “O Londrina ON é o coração dessa estratégia: mais do que uma plataforma digital, é um modelo de relacionamento e inteligência que conecta o poder público aos mais de 600 mil londrinenses e transforma cada interação em dados para uma gestão mais eficiente”.

Para o prefeito, “o Londrina ON apoia iniciativas como a telemedicina, fornece indicadores estratégicos sobre atendimento, demanda e resolutividade, permitindo decisões mais rápidas, planejamento baseado em evidências e melhoria contínua dos serviços públicos”. Segundo ele, o modelo começou pela zeladoria, chegou à saúde e será expandido para a segurança pública e para a mobilidade urbana, “com dados em tempo real orientando cada decisão”.

Numa ‘montanha’ de dados o mais difícil é priorizar

Graduado em Administração de Empresas, Luiz Gustavo Comeli, um especialista em planejamento e gerenciamento estratégico que há duas décadas se dedica a liderar equipes e implementar projetos, disse à Folha que quem estuda o conceito de cidade inteligente entende que o grande desafio dos tempos atuais não é exatamente ter um ambiente com capacidade técnica para realizar algum projeto de transformação.

“Diante de tantas oportunidades, o desafio real é identificar as prioridades de cada município”, argumenta. Ele explica que o trabalho do hub de govtech que ele coordena tem como objetivo principal a formação de vínculos entre os atores da administração pública com os empreendedores do ecossistema de inovação. “Estas parcerias aproximam o poder público de soluções que já estão disponíveis no mercado ou, no caso delas ainda não existirem, juntar cérebros para desenvolvê-las em conjunto. Nosso trabalho é articular os interesses destes dois mundos e oferecer uma série de opções para resolver problemas”. Comeli pondera que mesmo com tanta tecnologia disponível no mercado, a habilidade de orquestração da equipe e a capacidade de decisão do gestor público em como usá-la da melhor maneira é o que mais exige preparo. “Muitos municípios são capazes de coletar um volume enorme de dados sobre a realidade das ruas, mas não têm uma estrutura para processar tudo isso e identificar as prioridades, o que é fundamental quando é preciso decidir onde e como aplicar os recursos disponíveis”, avalia, usando como grande exemplo as políticas públicas sobre mobilidade.

Paranaenses estão cada vez mais conectados à internet, aponta pesquisa

Se alguém ainda duvida de como o cidadão paranaense está ligado à tecnologia e como ele está facilmente acessível para a interação como em nenhum outro período da vida pública, basta examinar os dados de uma pesquisa do IBGE divulgada na última quinta-feira (2). Os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua sobre Tecnologia da Informação e Comunicação atestam que 95,5% das moradias no Estado utilizam internet. Entre as pessoas de 10 anos ou mais, em 2025 o uso da internet também alcançou o maior percentual da série, assim como a posse de telefone celular para uso pessoal, que chegou a 92% da população. Em 2016, a utilização da internet alcançava 68,5% da população com 10 anos ou mais. As pessoas com 60 anos ou mais apresentaram o maior crescimento, passando de 354 mil pessoas em 2016, para 1,49 milhão em 2025.

Imagem ilustrativa da imagem A inteligência das cidades, um conceito que vai muito além da tecnologia
| Foto: bgblue/gremlin/Getty Images

Ao mesmo tempo, a internet vem sendo cada vez mais utilizada para o consumo e aos serviços financeiros. Em 2025, o acesso a bancos e outras instituições financeiras foi de 75,9% dos usuários; ler jornais, notícias, livros ou revistas são hábitos para 71,9% das pessoas com 10 anos ou mais; comprar ou encomendar bens ou serviços é feito com frequência por 55,8% do total de pessoas.

De acordo com o pesquisador do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes, esse movimento reflete uma mudança no perfil de utilização da internet pela população brasileira. “Entre 2022 e 2025 houve uma expansão nacional de 14,4 pontos percentuais no uso da internet para acessar bancos e instituições financeiras, além de um aumento de 10,9 pontos percentuais nas atividades de compras de bens ou serviços on-line", destaca. Embora os resultados apresentados pelo pesquisador sejam nacionais, eles evidenciam uma tendência de ampliação do uso da internet para atividades cotidianas que vão além da comunicação e do entretenimento. (Com informações da Agência IBGE)

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